quarta-feira, 25 de maio de 2011

bovariana I

/Imagem de Odilon Redon/




É teu suspiro esse ruído, ele não vem. Provavelmente não, não viu? Agora vai eufórico à cidade, seus passos já pisaram resolutos essa lama, estão em plena estrada. Essa terra é pequena pra ele, ele quer galopar, alargar-se, mover-se. Porque afinal ele pode enfronhar-se de fato em tudo aquilo que em você não passa apenas de sonhos, desejos vagos, possivelmente até mesmo doença. É fato. Ele vai ser tragado pelas luzes da cidade, girar por elas e perder-se, consumir-se. Terá à sua mão os cheiros e as palpitações da vida errante, misturas e farturas de artifícios, frufrus e tranças, festas de cores e licores e sabores. Até quando durarão? Até quando: essas glórias pequeninas que viveram em segredo, esses prazeres mudos que compartilharam – até agora pouco, quando ele veio aqui, mediu-te de alto a baixo, para depois partir sem quase ter palavras - e que, quando vividos, eram imensas volúpias condensando os segredos do mundo? Eu pergunto até quando. Pois os segredos do mundo, eles todos, inteiros, virão de uma só vez à frente dele: por meio dos convites transbordantes dos hotéis, pelas portas dos bares de sorrisos palpitantes, pelas luzes dos prédios, restaurantes e teatros, pelos olhares novos, fulgurantes, estrangeiros, pelos aplausos vivos, pelas capas dos jornais. 


Tens à tua frente esse horizonte largo, a imensidão que te promete oferecer, talvez só por ofensa, o sol tranquilo de todos os dias. 


(São Paulo, maio de 2011)

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