sábado, 7 de maio de 2011

negavela


/Imagem de Odilon Redon/

 
Toma a tua sopa em cadência. Que decadência, nega!, andando pela escada zonza. Nunca tens medo: do peão que fala em te foder, do besouro perseguindo teus mamilos, do corcunda do quarto 12, te olhando difuso, rendido à benzina. Nem tens medo do PM que passa os papelotes para a vila. Mas tua hora vem chegando, bem sabes. Rebolas menos agora, e olha muito agora, nunca olhaste tanto: para as ambulâncias, para as enfermeiras, e o que te interessa no corcunda são as ampolas que ele guarda. Uma sombra, nega – são as patas absurdas perseguindo teus requebros. Tens o paraíso ameaçado - os discos, a cachaça, a pensão que te segura – tuas unhas não conhecem mais esmaltes, e ainda que apeles em usá-los, não inibirás tua falência, teu descascar em cores fortes e suaves. Nunca foste suave, os olhos sempre injetados, o rosto, pedregulho maduro, sorria por convicção – nunca foste levada! Andas aparvalhada, e tua coragem agora é cômica. Amedrontas-te com o mínimo ruído, de baratas que se aventuram nas gavetas, de traças que ousam por tuas roupas, teus papéis. Não tens tempo, ou o tens em excesso, como fartas águas de rio estreito. Não suportas o tempo, contado em programas de tv, em abrir e fechar de portas da vizinhança, em ecos, silêncios, espasmos, engulhos, vapores, vagares. Gostas de ouvir o sexo da universitária do quarto vizinho, que sempre leva para farrear uma duas três amigas. Parecem gatas. Refestelas-te? Talvez gostasses de participar? Não, ficas compungida, horrorizada, te deitas na expressão bovina de quem nada viu. Mas, sim, depois desces, sempre a soprar tuas sopas, dando pequenos bocados de quando em quando, vai conferir quem são as moças. E são sempre lindas, e nunca são as mesmas. Onde a mocinha as encontra? Tu queres tetas, nega? Negas! Queres gemidos mais dóceis que os das garras ásperas dos Mores Majores Belchiores? Um buraco começa a escavar o teu peito, já notas – e arrotas, solitária, cenas de outras paixões... Vendaval... O de barba do bar te encarando. Dizem-no alinhado, prudente, professor. Seu olhar cristalino desenha memórias no ar. Pensa na infância, é o que dizem. E tu, nega, na infância? Não te ocorre voltar ao passado, concreto carcomido entre tábuas rangendo, tu arrotas, solitária. A cama do homem de olhos macios: alinhada, prudente. É o que queres? Amavas Amarildo, que não retornou mais de Santos depois que viveras o aborto. Sangue morto. Mas teve o passeio de barco com cravo amarelo nas tranças. E um vinho importado, bebido no Parque da Luz, ao som de foguetórios. Era Réveillon. Ano após anos, tudo passa,  Amarildo e a beleza de tuas tranças, os Majores e os Sertores e os Minores, olhos mortos absortos de abortos, olhos leves espumosos veludosos. Tudo passa. As meninas entre risos nas escadas, as famílias com sacolas e crianças, viaturas e ambulâncias no silêncio. Tudo passa. Nega fica. Nunca atiraste tuas bitucas nos passantes, nunca apelaste ao professor de barba fofa. Mas é a mesma coisa, nega, ter escola e ter maldade.


São Paulo, janeiro de 1998.   



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