sábado, 11 de junho de 2011

vinte contos


/Imagem de Christopher Orr/




Sexta-feira na Avenida Paulista lotada. Dezoito horas. Cenário de sempre: avenidas cheias, carros buzinando. Temperatura entre quinze e vinte graus.


Encontro em frente à estação Paraíso um ambulante oferecendo sua mercadoria. Trata-se daqueles piões giratórios, que ao rodopiarem emitem luz colorida - um objeto que sempre achei gracioso. Tive a súbita ideia de comprar um para minha filha. É o tipo de presente que adoro comprar: por ser barato, de beleza simples e - isso é importante - por ter chegado até mim por acaso. O tipo de coisa que costuma produzir bons minutos de alegria entre um pai babão e uma criança animada.


Paraíso. Meu ponto de chegada. Meu fim de dia. Meu sossego. Era exagero evocar Dante e sua lucce eterna. O desassossego do cenário, sua balbúrdia, talvez me remetesse mais ao Inferno. Sim, não era eterna a quella lucce, só uma luzinha ordinária que girava aos pés do camelô, um coreano esfarrapado - eu vi quando cheguei mais perto.


Tenho uma indisposição quase instintiva ao ato de comprar. Aborrece-me acionar meu modestinho mecanismo de finanças (inclusive porque em geral o resultado é invariavelmente lembrar que ele não anda a contento). Mas algumas vezes sou tomado por vontades súbitas, que, exatamente por serem raras, merecem meu respeito. Foi o que aconteceu quando cheguei perto do ambulante coreano, um sujeito, repito, particularmente esfarrapado. Em poucos segundos percebi que ele não falava português: 


- Dez leais.- ele repetia enquanto eu olhava o piãozinho que girava na calçada. 
 
Tirei do bolso do casaco uma nota de vinte reais. Seriam dez para o brinquedo, e dez para o táxi, pensei. A conta justa. Talvez tivesse comigo alguma outra nota de dez, mas não em meu bolso, talvez na carteira, e eu  por princípio não mexo em carteira no meio da rua. O certo era entregar os vinte contos e agarrar aquela belezinha o mais rápido possível para vê-lo girar entre os risos da minha filha.


O coreano então me deu uma caixa branca pequena, de cartolina. Dentro dela, o incrível pião luminoso.



Eu aguardava pelo troco olhando a gente deslocar-se na calçada, estranhamente feliz, apesar do dia extenuante de trabalho e do cenário caótico, quando ao meu lado surgiu uma senhora, sessenta anos no máximo. Ela perguntou ao vendedor se aquele era brinquedo apropriado pra crianças de dois anos. 


O coreano - era visível - não podia responder. Além do problema linguístico, estava perturbado com a chegada inesperada de mais quatro clientes, que atiravam-lhe rapidamente perguntas diversas. O vendedor punha pião a girar diante desses novos olhos, interrompendo a busca pelo troco, repetindo o tempo todo algo que entendi como "Balato, bom, dez leais".


- Minha filha tem dois anos. - Expansivo, resolvi dividir minha alegria com aquela senhora - Pode ter certeza que..


Mas ela não estavam mais ali, já andava distante, e ela e todos os outros curiosos. 


Então ouvi um grito e li o medo na expressão desesperada do imigrante (era muito magro e pálido, uma figura tão apagada que mal se podia pensar que tivesse alguma idade) e vi um PM forte, moreno, acompanhado por outro, mais magro e mais branco, de óculos. 

Metendo a mão no saco plástico preto onde estava a mercadoria do ambulante, o PM moreno repetia obstinado:

- Ou entrega ou vai preso.


O coreano, estupefato, olhos miúdos, apequenava-se ainda mais contra a parede e, segurando na outra ponta do saco de mercadorias, procurava resistir, desesperado: 

- Não, não sabe.


O guarda puxava o saco, e o coreano, com as mãos presas nele, assustado, repetia: 


- Não sabe...

- Agora sabe - Gritou o soldado fortão: - Entrega ou vai preso.




Por que eu não foi embora? Por que fiquei ali grudado, participando da cena? Curiosidade? Indignação? Provavelmente nada disso. Perplexidade talvez. 

Tinha comigo aquela caixa branca, com o pião e a alegria da minha filha dentro dela, e o coreano estava com meu troco de dez reais. Apenas isso era um fato concreto para explicar meu impasse. 


O guarda de óculos viu a caixinha em minha mão e, antes que eu pensasse em devolvê-la ao imigrante  esfomeado, me disse, aliás em tom notavelmente educado:

- O senhor se importa de entregar? 

O PM mais forte se apossara enfim do saco e a caixinha que, sim, entreguei ao outro guarda, foi obviamente logo parar ali dentro também, entre a matéria apreendida. 

Eu encarava o coreano, seus olhos eram de pavor, de desespero, desamparo. Pensei em lhe dizer "Vai embora logo, meu irmão, não adianta discutir, eles vão acabar te quebrando".


Mas a ação - entendi- tinha chegado ao fim. Os PM's não pareciam dispostos a espancar o sujeito. 


Com ar de criança abandonada, e gaguejando ainda por vezes um "Não sabe", o coreano estava prestes a chorar. 


- Ele ficou com algum dinheiro seu? - perguntou-me o PM mais forte.


Como ignorando sua pergunta, dirigi-me com ar cúmplice ao coreano, e disse apenas "Dez reais", e apontei para o seu bolso: "O troco". 


Com olhar mais que humilhado, o coreano, num pedido mudo de perdão, estendeu-me então uma nota. Os policiais nem viram, ou fingiram não ver, a transação. A nota era a de vinte contos: era aquela do início da negociação.


Não era justo, pensei (e justiça por acaso é uma palavra sensata?)


A nota, no entanto, estava inutilizada: havia um buraco circular, comendo toda a cabeça da efígie da República, e, no verso, o rabo do mico-leão-dourado. 



A luta entre o guarda moreno e o coreano rasgara aquela nota, que afinal não era minha, de ninguém, era só o símbolo do absurdo consumado. Dos imigrantes zumbis, trabalhadores incansáveis, com suas mão gastas, sem língua nem olhos, vendendo o que podem, trabalhando no limite de suas forças. 


Pois é, coreanos vêm pra São Paulo para buscar uma vida melhor. Coreanos de médio porte exploram mão de obra boliviana. E bolivianos exploram bolivianos mais pobres. O governo proíbe. PM’s executam ordens. Tudo é bem profissional. Nada mais que isso.

Bem, fim de um consumo miúdo, fim da festa encantada nos pés da minha filha, fim de cena, fim do dia. 
 
Embolsei a nota, guardei-a comigo. 


São vinte contos perdidos. 


E algumas vidas.  




(São Paulo, 11 de junho de 2011)




5 comentários:

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  2. gostei, professor. quer dizer, gostei do texto, não necessariamente do fato. agora, uma questão mais pragmática: acho que se a nota como recordação valer menos que 20 conto, dá para trocar ela em um banco por uma nova.
    Abraço

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