sexta-feira, 1 de julho de 2011

joão


/Imagem de Anselm Kiefer/

Conheci João na Pastoral da Juventude. Ele tinha 18, eu 17. Sem dúvida alguma, era o mais inteligente entre nós. Falante, astuto, cáustico e até mesmo maldoso, ele tinha o dom da oratória e uma capacidade analítica fora do comum. Era também bom ouvinte, bom interlocutor e generoso leitor, que escutava atentamente o que eu andava escrevendo por aqueles tempos.

Andávamos sempre juntos, naquele estado exaltado das descobertas juvenis. E dividíamos leituras, músicas, passávamos grande tempo analisando as letras: Chico, Caetano, Edu Lobo, Vinícius. João também escrevia, mandava-me cartas imensas, caudalosas, onde pintava o colorido Mundo Novo que sonhávamos, um mundo de livros, canções e alimento para todos. Um mundo anárquico, sem centralidades, um mundo sobretudo jovem.

Adorávamos zanzar pelo centrão. As galerias antigas, os museus, as lojas de discos usados, os sebos e os cafés. Um dia conhecemos Henrique, um velho barbudo de boné de soviete, sempre à porta do Municipal, rodeado de um bando de jovens, todos barbudos, cabeludos e anarquistas, carregados de livros e de sonhos libertários. Henrique era excelente orador, mas era também - eu descobri bem cedo - um verdadeiro charlatão. Detestava ser negado e golpeava desonestamente seus contendores com sentenças cegas e olhos  furiosos de touro. Quando o ataquei, João tomou seu partido e houve então nossa primeira briga, uma discussão inflamada e ruidosa, dentro de um ônibus lotado.

Os dois morávamos muito longe do centro, mas ele ainda mais, numa casa cheia de irmãos, filhos de migrantes, retirantes, operários de verdade. O irmão mais velho era socialista e trabalhava em torno de fábrica, militara no PT nos tempos fortes de greve. Conviver com João era, pra mim, reaprender o Brasil, dissociando pobreza de alienação, conhecendo de verdade o que significava para os fudidos desta terra a exploração capitalista.

Houve outras brigas entre mim e João, uma delas talvez bastante singular: ele não queria me encontrar sem a prótese dentária, que perdera, e procurava esconder-se de mim enquanto não arrumava meios de resolver a situação. Como insisti em vê-lo, chegando à sua casa de surpresa e flagrando sua ridícula banguela, João ficou enfurecido e me expulsou sem pudores, com injúrias.

Eu amava João, plenamente, precisava de sua presença, chegava mesmo a adoentar-me quando ele se ausentava.

Mas comecei a namorar, João era ciumento e entre a moça e o amigo eu fiquei com a primeira.

Nos afastamos. João foi estudar Filosofia na USP. Eu trabalhava em subempregos, em bicos, vendia de porta em porta, empilhava caixas em supermercados, era balconista, operador de telemarketing.

Muito tempo depois nos reencontramos. Foi na USP, quando eu fazia já o meu curso de Letras. Uma tarde de sol. Não consegui, à primeira vista, reconhecer o João. Parecia um traste humano. Sapatos furados, camisa puída, óculos remendados com durex. Mas se sentou e discorreu sobre Maquiavel. Brilhante, como sempre.

Mas tinha também algo de charlatão e de mendigo e foi-me inevitável ver ali um Quincas Borba (personagem que aliás eu conheci por sua indicação).

João, João, como anda você? Tinha se casado, fora infeliz no amor, sumira para o interior do estado, reencontrou a esposa em São Paulo, tiveram um menina. Sofia. Separou-se da mulher, brigavam pela guarda da criança. João estava mal, estava péssimo e pediu-me pra pagar-lhe um sanduíche. Lembrei que era ele, no passado, quem pagava-me os cafés, os sanduíches e as cervejas, pois tinha emprego bom na CMTC. A privatização arruinou João e, depois de formado, assumiu aulas em escolas do governo, por ideologia e falta de opção. Sofia era o amor de sua vida.

Não por acaso.

Conheci a menina esses dias, numa festa. Menina de onze anos, linda, esperta, os olhos do João. Estava com as tias, que me contaram o paradeiro de seu pai.

João enlouqueceu, paralisou. Esquizofrenia. Os livros, disseram-me, não lhe fazem mais sentido algum. As letras baralham, dançam à sua frente. A família toda alegrou-se quando ele conseguiu, há quinze dias, sair para comprar pão sozinho.

Lembrei-me que eu o chamava Joãozinho Zen, e cantava-lhe ao violão versinhos com esse nome. Ele ria, feliz pra burro, me abraçava e me beijava e me dizia: - Se o mundo acabar, Adriano, nós iremos juntos.

Eu ainda topo, (meu querido, meu velho, meu amigo) João.




São Paulo, 13 de junho de 2011

11 comentários:

  1. Adriano,

    Quanta vida com esse seu João. A esquizofrenia pode ser quase que uma forma de vida - ou de expressão - para aqueles que não suportam os limites. Tenho pensado muito num verso simples do Arnaldo Antunes: o que não tem cabimento.
    O mundo acaba a cada minuto, e alguns sempre retornam, outros não.

    Uma escrita comovente.
    Bj.
    Adelia

    ResponderExcluir
  2. Adélia, me sinto honrado pela visita e muito feliz com o comentário.

    Obrigado, mesmo.

    ResponderExcluir
  3. Daora o texto, Adriano!

    Beijo,

    Del

    ResponderExcluir
  4. Adriano é uma alegria te ver escrevendo, acho que está sendo muito prazeroso pra vc, não. Queria ter conhecido esse joão
    abraços, antonio

    ResponderExcluir
  5. Muito bom mesmo, Adriano! Que puta processo catártico que deve ter sido escrever isso...

    ResponderExcluir
  6. Del, estou lendo aqui seu A LOCA. Rachando o bico com os diálogos espirituosos. O que é aquele tribunal, cara? Muito bom! Lembrei do Zé Bebelo discursando no meio dos jagunços... Tô adorando seu livro, rapá! E muito obrigado pela visita.

    ResponderExcluir
  7. Tonico, sempre generoso. Muito obrigado pela visita e pelos comentários, cara. Você vale muito.

    ResponderExcluir
  8. Adriano meu velho, confesso que no inicio do texto pensei que não me surpreenderia, no entanto, acabado o texto, um sentimento de angústia, beleza e "não sei que" tomaram o lugar do ponto final...

    Guilherme Vazquez

    ResponderExcluir
  9. Valeu, querido, pela visita.

    É esse "não sei que" que nos une em denso silêncio.

    Abraço.

    ResponderExcluir