quarta-feira, 12 de outubro de 2011

dorinha



                                                                Você é tão bonita quanto a utopia

Ela acorda antes de mim, fatalmente. Enquanto vou tentando abrir os olhos e encarar o frio do dia, ela já saltou da cama, circulou pelo quarto, e agora corre pelos cômodos, falante. Inútil convencê-la das delícias do sono em manhã tão gelada. Inútil também é tentar agarrá-la, aninhá-la em meu colo, iludi-la com histórias.

Chegou a hora do dia e ela logo me convence com seu murmúrio de seda que nós devemos levantar, pôr a cozinha em ação, descascar mexericas, picar o mamão e torcer pela vinda do sol.

Tem apenas dois anos e claro que não me diz propriamente nada disso – mas sei o que ela quer, com sua alegria matinal e com o que pra mim é o chamado mais irresistível de todos que ela já conhece – Papai –, escandido lentamente, com a repetição deliciosa da bilabial.

O sol aparece e então vejo que a manhã pode ser realmente uma festa.

Digo o verbo “passear” na forma musical que sempre uso e isso basta para que ela saia correndo pela casa toda, repetindo a música, batendo palmas, derrubando objetos.

Passo o café, sirvo-lhe fruta, suco e um pequeno pedaço de pão com manteiga (ela lambe a manteiga, morde um naco insignificante do pão), visto-lhe um casaco bem grosso e uma touca de lã, mas com suas luvas não chegamos a um acordo. Como enluvar mãozinhas tão pequenas? Como fazê-las entender que em cada buraco deve encaixar-se apenas um dedo e que nenhum deles – buraco e dedo – pode ficar sobrando? (Eu deveria obviamente ter pensado num outro modelo de luvas, daquelas sem divisão para os dedos). Ela até que é paciente com a minha inabilidade. Mas cinco vezes o polegar e o médio encontram o mesmo espaço. E isso porque estamos só na mão esquerda. 

Quem desiste sou eu. Puxo as mangas do casaco de modo a deixar suas mãos protegidas, coloco seu corpinho animado no carrinho de passeio e logo estamos na rua, com sol, sem nenhum vento, apenas com o ar muito frio.

Tudo lhe chama a atenção: gente, árvores, cachorros, barulhos. Não penso como era comigo quando tinha sua idade. Não me vem qualquer pergunta na verdade. A paisagem se descreve pela luz de seus olhos, ela se narra pela sua imaginação. Também não penso nesse instante em Baudelaire, seus comentários sobre Constantin Guy, nem no heterônimo Alberto Caeiro. Apenas conduzo Dorinha, que vai aos poucos me mostrando como o mundo é, guiando minha percepção.

Há patos na lagoa, meninos e meninas correndo, um desenho num muro que lhe inspira terror. (Ela me mostra o que é o terror: uma figura que derrama sangue pelos olhos. Eu ensino: tem isso, sim, minha filha, "Alguém desenhou". Eu aprendo: esse desenho é medonho, papai, "Medo, medo".)

Mas nada tem de medonho - vou descobrindo – o bebedouro onde ela quer molhar as mãozinhas, completamente indiferente ao friúme do dia: “Qué lavá mão, papai!”, ela repete com insistência. Então lava as mãos, bem devagar, soltando um grito de alegria, e pondo o corpo alinhado ao pessoal que faz cooper, imitando. Em seguida, vendo o povo se alongar nos aparelhos, aproxima-se e observa atentamente os movimentos que fazem, sem pudor, olho no olho, e termina por imitá-los, como se todos ali a estivessem convidando pra uma boa brincadeira. Arranca sorrisos, risos abertos, soltos, desconcentrando a obstinação dos devotos ginastas.

Manhãs vagabundas como esta, que preço terão?

Tenho certeza de que cada um desses miúdos detalhes constroem, aos poucos, sólida e lentamente, uma eterna relação de parceria, de cumplicidade, de amor, enfim. Mas francamente não me importo com isso, não me importo com os resultados, os "saldos positivos" do futuro, como se amar Dorinha fosse um investimento...

Me recordo de Caeiro:

Amar é a eterna inocência
E a única inocência não pensar.

Penso em meus pais. Me espanta que eles possam ter me amado assim ou que me amem ainda desse jeito. O sentimento é exatamente esse: o de espanto. Renovo meu amor por eles, e, de certa forma, na convidativa calma da manhã, por toda a humanidade, lembrando os versos de Arnaldo Antunes, segundo os quais Hitler e Einstein - seres tão contrários - foram igualmente o que hoje é Dorinha: uma criança, isto é, esse convite sedutor para a reinvenção do mundo. 

Agora ela insiste em subir no triciclo de outra criança, cujos pais, pacientes, sorriem, liberando o brinquedo. Estamos já no playground, perto do tanque de areia. Ela não solta o brinquedinho do menino e mantém um olhar assustado e ao mesmo tempo paciente. Um olhar concentrado. Digo que devemos continuar caminhando, explorar outros espaços. Sugiro o balanço, a gangorra, um trepa-trepa incrementado que eu não lembro de ter visto em minha infância. Ela não quer. Encontrou o seu posto, está estável, dura sobre as três rodinhas – e nem sabe pedalar.

Tirá-la do triciclo significa convocar um choro ao qual me habituei de tal forma que quase já não me incomoda. Os outros "nãos" que lhe darei pela vida – como ocorre sempre nessas horas – vêm à tona. Mas o que devo atirar ao futuro? Eu me recuso a especular – o pensamento dura poucos  segundos – porque o presente me envolve e quero aprender a ser fiel a ele, em sua forma dinâmica e até mesmo confusa. E logo sou convidado para novos olhares, reconhecendo ou conhecendo outros ângulos do mundo. Ela parou de chorar, e vamos prosseguindo - não é assim a vida?

É muita novidade que Dora respira, canta, grita, chora e gesticula. Cada um de seus passos – na pista de cooper, no tanque de areia fofa, na estaticidade resistente no triciclo – representa para mim uma chance de inscrever-me de outro modo na vida, convidando-me para o mundo, e a cada dia mais enfaticamente me mostrando que é um verdadeiro pecado não gostarmos de viver. 

Mais tarde, depois do almoço, quando ela cede aos encantos de um Trenzinho do caipira entremeado de Bandeira e Ferreira Gullar, que eu entoo quase todos os dias, como um mantra, um sorrisinho maroto ainda resiste no rosto dela. Mas Dora vai aos poucos entregando-se ao sono.

Com quem se parece?, pergunto. Comigo, com sua mãe, com nossos pais e parentes, é claro. Mas parece também uma espécie de milagre, o milagre de podermos fabricar pessoas e de sermos, também, por meio delas, fabricados, como quem renasce todo dia para a vida. Como a poesia de Pessoa, o espírito pueril transformador do que há de melhor na arte moderna, como o trenzinho singelo de Villa-Lobos, como Bandeira, e sua terra sonhada. Como todos os amanhãs que cada dia engravida.

Como a utopia.


(São Paulo, agosto de 2011)

11 comentários:

  1. Lindo! Viva as utopias! Viva a nossa pequena ( cada dia maior)Dora...

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  2. Amor, lembre-se de que "Um galo sozinho não faz a manhã"... Beijão.

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  3. Lindíssimo Adri! Fiquei emocionada. Da para sentir o amor pulsar de cada palavra. Beijao Elaine

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  4. Lindo. Lindo. Lindo. Beijinhos em ti e na Elenira. E na Srta. Dora.

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  5. engatinhar às margens do impossível

    "Como todos os amanhãs que cada dia engravida.

    Como a utopia."

    com essa lindeza-enorme pequenina.

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  6. só hoje li esse....que lindo!que emoção!emocionei mesmo....vi Dora em cada palavra!que lindo...que amor!que pai,que sorte ela tem de ter essa linda família!bjs prs vcs 3!beijos márcia

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  7. Flavinha, querida, muito obrigado pela visita! Bjão pra você!

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  8. Só hoje li e assim me encontro feliz. Seu "Dorinha" é de uma lindeza tão cristalina que dá vontade de pular, num mergulho. Mergulhando, saio dele fresca e terna, acreditando nos sentimenos mais comuns, aqueles inspirados pelos olhares encantados.
    Adelia

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  9. Minha mestra, minha guia, que honra ler essas palavras! Sinto-me muitíssimo lisonjeado e acima de tudo feliz, por saber que esse negócio de escrita consegue mesmo irmanar as pessoas nas mesmas sensações. Bjão, querida, e muitíssimo obrigado pela generosidade!

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  10. Muita é o que o seu texto me proporcionou. Muito lindo , límpido.

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