sexta-feira, 22 de junho de 2012

entulhos (VIII)


/Imagem de Alfred Kubin/


Tinha dito que sou um cão, um rato ou talvez um arrulho de pombo. Entre escombros. Tinha dito algo mais, mas prefiro por ora calar, apenas sentir, durante a noite toda, esse demônio que me morde, confundindo os sentidos. 


Quando voltei às aulas me disseram que eu estava muito frágil, cansado. Mandaram-me à enfermaria, foram delicados, mediram minha febre, deram-me água com açúcar. 


O copo de plástico parado em minha mão, as  minhas pernas pendentes sob a cama hospitalar. Pela janela eu vi o céu e isso me causou assombro. Como se o pesadelo pudesse ser infinito, como se todos agissem - me ajudando e me servindo - no fundo apenas pra manter meu sono intacto, os sentidos dormentes, as ideias viscosas, as palavras misturando-se à matéria pastosa grudada à minha boca, prendendo-se à língua. 

Por isso um gole d´água. 

Atravessei o pátio com passos moles de inválido.


- Sou um inválido, eu sei.- e atirei o copo ao chão - Talvez seja também repugnante, como diz lá a revista. 


Depois ganhei a rua, parei um táxi, fechei a porta, deitei-me. 


Aferrado à cama. 


Alguém disse (dentro do sonho?) que sou muito pessimista. 


O pessimismo é a esperança agonizante. 

(São Paulo, março de 2002)


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