quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

São Paulo, cidade finda




São Paulo de Juó Bananére, de Mário de Andrade
São Paulo de Mano Brown, de Piva
São Paulo de Ruffato, São Paulo de Beto Brant
São Paulo assobiada por João Antônio
sapato impactando o asfalto
São Paulo do samba
São Paulo operária
São Paulo preta, São Paulo italiana, São Paulo nordestina
Febre terçã da mocidade
cidade louca, cidade viva
cidade cintilante
"Nunca foi só de trabalhar
a minha Paulicéia 
Não é de sol, não é de mar
São Paulo são idéias"
(Celso Viáfora)
São Paulo da Liberdade, da Avenida Liberdade, Alex
Mário cantando a cidade na garagem da periferia
a garganta da periferia
do subúrbio
São Paulo do Bexiga, São Paulo sobretudo da Augusta
a Augusta dos bilhares, dos bares sujos, dos ofendidos e humilhados bêbados sujos
a Augusta da fedentina, a Augusta da urina
a Augusta suja
São Paulo das enormes luas da Estação da Luz
com o moicano levantado e as botas trotando às duas
três, quatro
horas da manhã
o dia começava ruidoso na avenida Prestes Maia
era gigante na fileira interminável de carros
a fila pela espera no "orelhão"
o pregão do velhinho olha a ficha
olha a ficha olha a ficha
o dia é bonito no Vale do Anhnagabaú
e ainda é mais bonita a noite 
do Anhangabaú
Caetano, Gil, Rita Lee na festa
de encerramento do mandato de Luísa Erundina
a Avenida Liberdade, a Rua dos Estudantes
a Igreja dos Enforcados, a escravidão em São Paulo
os estudantes poetas, ultrarromâticos,
bêbados delirantes
a Liberdade que eu frequentei no horário das aulas
da oitava série
manhãs geladas, luvas pretas de lã
me aventurando a conhecer a Libertade
a pé
depois no ônibus londrino
vermelho
de dois andares
me sentindo bombeiro
me sentindo herói
me sentindo gente
da Nove de Julho, da Avenidade Santo Amaro
no terminal de ônibus, com Rodrigo
meu amigo com cara de chileno
vivendo um banditismo xinfrim
entre furto e briga de rua, vandalismo, depredação
pichação
a bronca e a bordoada da polícia ferroviária
na estação Prestes Maia
eu tinha alcunha, nome de batismo
não mordia, mas estava aprendendo a latir direito, usando lábia
negociação
São Paulo de minhas divagações, São Paulo de minhas evanescências
São Paulo das dilequescências e
obsolescências
São Paulo da espera
do duro tempo da espera
a vida a conta-gotas
e uma noite de sono praticamente perdida
São Paulo da chuva impiedosa
da fome, falta de cigarro
da aflição, vida de sururu
Carolina de Jesus, que desgraça
São Paulo das muitas pretas, das muitas mulheres pretas
das muitas mães aflitas como Carolina na favela
São Paulo dos gordos ratos
das grossas sobras
da fartura e do desperdício
da vida perdida rápido
um tiro, um grito
crack
doença
aids
- A cidade é veloz coisa nenhuma... A cidade é lenta -
fala o motorista baiano
e limpa a testa com lenço, pedindo para não pisarmos no motor
suando em bicas
e nós todos pendurados, moídos, todos amassados, consumidos
todo ônibus lotado é sempre um navio negreiro
algum gênio pichou pela rua espremidos, sufocados, combalidos
da excruciante faina
as caras sonolentas, amuadas, borocochô
alguns pendurados nos ferros, como em sacrifício
um assento vaga e a polidez mal disfarça a pressa
sentou o mais próximo, sempre
essa é a regra tácita
e quem senta imediatamente fecha os olhos
dorme solto, chega a roncar
e passa vergonha
mais de uma vez dormi e pesado e passei do ponto, três
quatro paradas
acordei perto da garagem
era noite
numa rua desconhecida
diverto-me com a ideia de perder-me pelo meu próprio bairro
cigarro na mão
rindo da subversão inocente, uma cerveja a mais, um cochilo
uma escapada do serviço, uma pequena jogatina, uma pinga
São Paulo do meu tédio interminável
São Paulo da melancolia
da saudade do Ibirapuera
da música “Paulista” na voz da Vânia Bastos
São Paulo da minha banda new romantic adolescente
de minhas especulações, minhas inconclusões
São Paulo da bufonaria de Oswald
São Paulo de Mário de Andrade
São Paulo da mão de obra nordestina, mão de obra pesada, mão de obra mal remunerada
São Paulo de atropelos e naturalizações de atropelos
Cidade-pesadelo
Endinheirada, cínica, fria
viveiro da mais mundana aberração
Eu conheci os livros de João Antônio muito depois de tudo isso, bem recentemente, há apenas cinco anos, em 2012.
Em meados da década de 80 - descobri lendo as biografias e autobiografias do autor, ele vem como jornalista fazer cobertura da campanha de embelezamento da cidade, para o desenvolvimento do setor turístico e do comércio
depois de anos vivendo no Rio de Janeiro
e registrou em “Abraçado ao meu rancor” (1986)
suas melancólicas impressões sobre a cidade
sua indignação
Ao se deparar com a nova São Paulo, João Antônio conclui que
"A cidade deu em outra" ela ganhava definitivamente o lugar de capital dos negócios, se elitizava, mantendo o alto índice de desigualdade, com uma elite esnobe e antipopular, que consumia o luxo material e propagava o lixo intelecual
O paulistano médio tem espírito tacanho, imaginação curta
Pelas periferias, imperam os jargões da prosperidade alcançada por meio de duros sacrifícios pessoais. E assim, mais ou menos ao modo de um Paulo Honório, vão surgindo os novos-ricos da São Paulo americanizada
Em 2017, eis que temos um novo higienista em São Paulo
O sujeito mais limpinho de todo a região Sudeste
Em 1906 o Rio de Janeiro viveu sua reforma urbana eurocentrista elitista, antipopular, quis banir do centro a população preta humilhada, ofendida, pisada, expelida
São Paulo não ficou atrás. São Paulo tem favela em todas as zonas da cidade e construiu para si mesma um novo centro, nem se ocupou de destruir o antigo, apenas o abandonou
O centro perigoso à noite, o centro do assalto, do roubo, da briga
O centro disputado a tapa, na base da bala
O centro antigo feio, terrivelmente feio das prefeituras do PSDB

Encerro perguntando o que diria, amigos
João Antônio sobre a São Paulo
de João Dória?
Talvez, quem sabe:
- Continuarei com você, cidade finda

"A cidade deu em outra"

Quem é que sabe?

25 de janeiro de 2017




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