sábado, 28 de abril de 2018

ad immortalitatem


o poema colhe a esmola
de uma palavra positiva
e o poeta segue em frente
com o casaco enxovalhado
desfiando sombras na tarde
sobre a pavimentação cinzenta
o paletó a imagem derradeira
do poeta
a imagem da miséria
os farrapos dos fatos
os estilhaços da fome


a palavra fome
heresia
na escrita dos poetas de poesias
artistas-ourives
que se alimentam de fonemas
em plena fome de abril


cresce o desemprego
aborto clandestino
tortura morte horror
estilhaços nos rostos
assustados
o osso no chão sacoleja
o dia na notícia de jornal
tardio
o dia
esguio
se equilibra em solidez
na cidade


são paulo à margem da imagem
a marginal tietê
"água verdadeira", em tupi
or not tupi
não é essa a questão
o tietê, escreve o jornalista, “são mais de cento e trinta quilômetros de água
morta”, assina

o poeta da poesia colige elogios
embrulha-os em couché
o riso pálido no meio da tarde
está sem tempo
está atrasado, “morto”
repete, cansado


mas o silêncio da noite é de grande apreensão
quantas noites não têm sido assim
mesmo antes de abril?


a palavra fome
impedida no poema
pesa mais do que a flor


entre os dentes
calada
paralisada

a flor

volta sempre
na rua, no asfalto
para lembrar que ainda existe





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