sexta-feira, 13 de julho de 2012

entulhos (I)



/Imagem de Alfred Kubin/
  
Aferro-me à cama de novo, no abafamento do quarto, ouvindo as bicoradas dos pombos. O ruído ocupa noites inteiras, atravessando o silêncio, misturando-se aos sonhos.

Recentemente iniciaram a construção de um prédio aqui do lado. O barulho das máquinas, das sete às cinco, encobre o arrulhar maldito das aves. E olha, isso me acalma. Mas quando a noite vem a cantilena retorna, no mesmo tom lamentosa, até a manhã seguinte.

Fico fumando à beirada da cama, acreditando que a cabeça finalmente agora deva explodir e que a cidade explodirá também, se tudo der certo, em pouquíssimo tempo.

Acordo de manhã e não vejo nada disso. Está tudo igual, as máquinas trabalham, os homens da construção se agitam, cantam e atiram piadas, eu posso ouvi-las daqui. Os pombos são liberados para um passeio, ocupam duas longas extensões nos fios de eletricidade. E seu Mário sorri com o sol na lente dos óculos.

Esta noite outra vez não dormi. Três horas da tarde e estou ainda de pijama, sentado à cama, ou caminhando de um canto a outro do cômodo acanhado. Três passos médios e um curto, é o que ele mede. Às vezes, já esgotado, viro à esquerda e chego ao banheiro. Completo então cinco passos. E é isso. Me deito.

As criaturas vestidas de colete amarelo me observam, se aproximam, vêm andando com calma, elas me cercam. Logo percebo que é inútil fugir. Forma-se um círculo ao meu redor, as bocas se arreganham risonhentas, molengas, quase se desfazendo. À tentativa de um gesto, a mão calosa se gruda à minha pele. E depois dela vêm outras, e braços, e rostos. Um rosto. O riso acanalhado se aproxima. Boca de dentes tortos  e amarelos, falando lentamente: Seria um gesto só de caridade.

Eu então me exaspero, me agito, saio ao quintal, reviro-me, meto os pés em poças d´água, mandando tudo aos diabos.

Às vezes penso em andar pelas ruas, rodar por aí, procurar companhia num bar.

Mas aferro-me à cama, e já são onze horas, já são onze e trinta, já são onze e trinta e cinco minutos.

Neste momento Ernesto Campos faz seu número no palco. Ao grito intempestivo da platéia ele se arroga. E até as cinco e meia beberão cerveja, rum, engolirão porções engorduradas de comida, soltando risos roucos. Carina despirá, pouco a pouco, a saia preta, a cinta liga, chutará no ar seus sapatos, para o a plateia aflita. Um velho, um jornalista entusiasmado, duas dançarinas, as noites se repetem e viram dia, se entrecruzando.

Quente, o pequeno cômodo sem luz, meu gabinete e meu quarto, parece aos poucos se estufar.

Os pombos, Seu Mário, eu aviso – eles me bicam no escuro, isso é fato. Um bacharel – Seu Mário diz – Um bacharel, veja bem, um moço lido e estudado, professor de adolescentes de família, e passa os dias a escrever.

Escrever não, Seu Mário, eu acumulo entulhos.

As bicoradas no entanto não param. Seu Mário entra de madrugada com as mãos na cabeça: Professor, professor, me ouça: sou eu, sou eu que guardo entulhos!

Ele ergue novamente as mãos à cabeça: – Estão grudados em mim, Professor, eles são meus e fazem parte de mim, estão cantando em meu peito. Chegue aqui, que os ouça.

O arrulhar é um enrolar de vozes e de vezes, é um adiamento, uma desfaçatez, porque um pombo jamais será um bomba. Então essa chiadeira não vai dar, Seu Mário, nunca vai dar, em nada.

Também tenho pena deles.

Seu Mário sussurra, desesperado, os perdigotos voejando direto em meu rosto: - Compreenda, eles precisam de mim. Chegaram bem doentes. Não podem ser entulhos!

Ele termina por dizer: Eu sou um homem doente.

Depois se recolhe e é possível ouvir seus murmúrio percorrendo o quintal: “malditos! loucos!”

O arrulho é um motor que vara a madrugada, continuamente. Talvez eu devesse ir finalmente apertar a mão de Ernesto Campos. Grande talento, livros publicados, regularmente em cartaz. Talvez devesse reverenciar os pés de Marina. Um escritor, ela diria. Sem nem um livro publicado. Um desperdício.

As vozes cantariam samba talvez, com a convicção de ser um último adeus ao Bexiga. "Mas uma epopeia à Roosevelt" – um mal-humorado sopraria – "fica impossível sem Roberto Piva".

No fundo as vozes me aliviam pouco. Risos roucos são uma forma de arrulho, eu pelo menos penso assim. Baixo a cabeça no balcão. As mãos de Carina correm sutis e cruéis em meus ombros. Baixo a cabeça para que o sangue de alguém possa escoar sobre o meu, a minha cervical para uma alma feminina.

O som dos bumbos da fanfarra (há uma escola aqui em frente, eu não lembrava disso), e as bicoradas na cabeça. Seu Mário acocorado, com a cantilena: Professor, escreva por mim. Um gesto de caridade.

Levanto-me, fico parado na penumbra. Feixes de luz atravessam a janela.

Ao diabo tudo isso, calço os sapatos, atravesso as poças d’água.

Um gesto de caridade, Professor.

Alguém não é doente?


(São Paulo, janeiro de 2002)





2 comentários:

  1. Adriano. Texto muitíssimo bacana. Nos falemos sobre o grandesertão.br, estou convencida de que o Bolle está quase certo (alguma alta porcentagem), o certo que se pode estar sobre qualquer literatura. Abraços. Thais

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  2. Que grata surpresa! Brigadão, Thais. Esse texto saiu na Celuzlose do ano passado, que já deve estar esgotada. Sobre o Bolle, quero mesmo conversar depois, ainda que pela net. Força aí. Saudades.

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