sexta-feira, 13 de setembro de 2019

das coisas contínuas



Na maioria esmagadora 
das vezes 
em que reclamo

de opressão
ofensa 
humilhação

Respondem-me:
por que permite? 
por que deixa?

por que não oprime
humilha 
e ofende

na mesma moeda?



São Paulo, 13 de setembro de 2019

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

ideia à toa













Os otimistas vivem mais?
Isso é um bom negócio:
Eles fiquem com a vida,
Eu fico com o ócio.


São Paulo, 11 de setembro de 2019


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

a arma quente



Quando éramos jovens
E a gaita boliviana, o vento de Dylan
Nos cabelos
E o azul nas ideias
Antigas
Quando éramos o que seríamos
Se pudéssemos ter sido

Quando éramos jovens
E cada geração beija a cega vaidade de dizer-se jovem
Até a velhice dizer, com Stones, tudo de novo

A arma quente do novo mundo
O riso fresco, o som da gaita
O baião, a malícia

Quando éramos jovens e tudo era espera para ser
O que somos
Hoje




segunda-feira
































Falam em constelação de afetos

Teias de sentidos

Falam em geografia dos desejos

Arquitetura da imaginação


Cavocam a língua

Atrás de palavras

Porque lhes falta o mundo.








São Paulo, 09 de setembro de 2019




domingo, 8 de setembro de 2019

7 de setembro

Marc Ferrez, 1882






























um filósofo dizia
que a filosofia
é o furo no guarda-chuva da civilização

eu era moço quando li
mas imediatamente inquiri

que guarda-chuva
qual civilização
furar o quê

nesta minha terra
toda construção é ruína
toda estrutura é buraco
presença é falta

toda esperança é espera e toda alegria é um adeus

entre outras mil
a terra que me pariu
é a pátria amarga brasil


7 de setembro de 2019

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

narcose



                                                    "Seremos sós entre esqueletos de petróleo e giz "
(Evandro Camperon)


onde

seus olhos

mãos, boca

posso vê-los

derretidos

na paisagem 

sem beleza

somos sem-olhos e também sem-narizes

e o paladar se foi antes da paisagem

mas fechar os olhos nunca

um ver-chumbo, um ver-pólvora

um ver-sangue seco

não sinto o paladar desde aquele

aluvião 

desde então pesadelo

narcose

não é só abrir os olhos

imbecil 

aplacar a fome

isso faz tempo que não

é sempre um roer de ossos

pedra pau 

come-se e descobre-se a morte 

mesmo assim todos se atiram à comida

a fome se impõe 

somos tíbios

temos fome

é difícil afirmar 

já fomos melhores

dizem

ou era apenas um ter-narizes

ter-olhos ter-bocas

só falamos

nem isso

comer e beber

quase animalizados

nem isso

quase robôs

nem isso

chusmas de dúvidas

ecos de esquecimentos

palavra envenenada

olhos manchados

nos pensavam deuses

nos sabemos monstros

cala essa boca

imbecil


São Paulo, 1º de setembro de 2019



(Fuente: weheartit.com, vía cocaine-kay)



sábado, 31 de agosto de 2019

agosto

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters


agosto se arrasta e não me mata
alcanço o fim do mês e ainda estou vivo
sangue correndo
tomo sol e café
beijo as crianças
jornal, futebol, felinos, frutas
o amor
a cidade agradece o fim do mês
que não foi muito pior do que os outros
durou
pelas calçadas pendurado no tempo
a espera em farrapos
- Acabou
o jornaleiro suspira com a eliminação de mais um mês 
na folhinha
um mês a menos
um termo do tempo consumido
para fechamentos, quitações, desastres
acúmulos, enterros
mas agosto termina e a cidade não pasma
espera, apanha nas pernas dos pretos
no ônibus cheio, no trânsito, na carestia
no riso do facínora
no incêndio da floresta
a espera em fuligem na cidade noturna
"São quinze horas em São Paulo", 
segunda-feira, dia 19
agosto consumido
quinhentos dias de prisão de Luís Inácio da Silva
“O preso político mais importante do mundo”
registrou Noam Chomsky
“Relógio da morte para a Amazônia está correndo”
registrou The Economist
sem crônica de aniversariante
me despeço
sem ressentimento
desse mês 

São Paulo, 31 de agosto de 2019

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

diário



este tempo de medo
este tempo seco
este tempo roído
na faina
este tempo de mágoa
fuligem

cada vez exigindo menos da vida



segunda-feira, 19 de agosto de 2019

porque a vida é um punhal





eu escrevo como quem arrasta o dia até a morte
como quem leva a agonia pelos cabelos 
para o sumidouro

como quem ouve tubulações fios arrepiados (o amor,
a cidade assanhada debaixo da saia) 
eco contido no túnel
grito chuvisco pardais púbis

cada pessoa se oblíqua no abismo mais sutil
cada pensamento é uma nova ida ao poço do ressentimento
tomar cafezinho, pentear-se, ver o sol, quando há

eu escrevo como com quem arrasta a cidade nas costas
seus relinchares, seus ares
eu resfolego a cidade na escrita pelas pontas dos dedos
e aqui - mais no Centro - me sinto, me sento como Mário de Andrade escrevendo

eu escrevo como quem sempre escreve, sobre escritores, 
Piva, Kolyniak, Del Candeias
sobre uma cidade vertiginosa
dentro dela
exatamente no seu centro

eu escrevo como qualquer pessoa que precisa sentar e dizer algumas coisas
como uma pessoa que precisa acender um cigarro 
ou atravessar um rio
sabe-se lá 
tudo é oco
(quando escrevo)

e eu escrevo principalmente para não deixar de escrever 
e, mais ainda, para não deixar de ler
a única tarefa digna
e há quem odeie a realidade virtual
e quem a endeuse
e continuamos - apesar do purismo
ou principalmente 
por culpa dele - 
a escrever  

eu escrevo para não terminar de escrever, para não deixar que morra esta noite, este resto de voz 
rouca 
que canta  

eu escrevo porque a vida é um punhal






   São Paulo, 19 de agosto de 2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

como quem atravessa a manhã







Que pobreza nós dois, que tristeza!
Alquebrados, moídos, atravessados de problemas
Que dureza 

Já nos fecharam o horizonte?
Os fatos se precipitarão e as notícias gritarão
Implacáveis

Nós dois, que dureza
Em que rua da cidade tomaremos sol?
Porque nos restam cidades de sol
Porque nos resta ainda amar

Que pobreza, que tristeza
Ainda nos resta um mundo inteiro a conhecer
Em cada um de nós

O que na tarde cinza reverbera
como indisfarçável vazio
Porque existe o vazio
Porque ele é indisfarçável

Apalpá-lo é impossível, senti-lo
Como quem atravessa uma nuvem
Como quem descobre o sol
Como quem atravessa a manhã

Que o calor dos dias nos aninhe em seu ventre
E nos soprem segredos os ventos
Amanhã
mañana
este é o tempo do amor.


www.eccovediamo.com


                  
 São Paulo, 02 de agosto de 2019

quinta-feira, 18 de julho de 2019

noche





No meio da cidade fria

No centro da vila

Perto do Pateo do Collegio

Não muito longe do marco zero

Devoro em você

Esta noche

segunda-feira, 15 de julho de 2019

objetos de memória




















a memória verrumante 
e seus pequenos instrumentos 
se dividem nas gavetas
pelas casas onde estive
ainda que por pouco tempo

e nas quais adoeci
me renovei
renasci

cada objeto é uma noite insone
com sua presença insistente
ainda que um dia, entre os entulhos,
fuja
ou se disperse na enxurrada

cada volta do parafuso 
é uma ginga da memória
e sua malícia perfunctória

cada sacarrolha, alicate
garfo, colher
cada cabo de faca contém
essa ausência.

Bragança Paulista, 15 de julho de 2019.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

forma viva

              Adam Riches


                                            a Evandro Camperon



é madrugada e escrevo
sem certeza
de que amanhecerá 
o dia
ainda que frio

a incerteza é minha
unha mínima do indivíduo 
- problema meu - 
amanhã
não é uma abstração
apesar de mim 
mesmo

a madrugada cai e escrevo 
sem certeza
de que haverá
encontro íntimo 
com palavra 
escrita
essa peleja é lenta
é solitária a tudo o que a orbita

gritando as ordens do dia
é enjoada, é manhosa
a contenda 

a madrugada cai e esqueço
a dúvida dilui-se 
e se objetiva
em alguma forma 
[ainda que tardia]
viva

São Paulo, 08 de julho de 2019.


segunda-feira, 1 de julho de 2019

noite alta


Musings - Robert E. Marx

É noite alta e só me resta
Vencer a escada e entrar no sono
É noite alta e só me sobra
O sono solto sem ter chama

Guerras, chacinas, penitências
Amanhã voltarão
Dissolvidas

Na espuma das horas
Que envolve a todos
Na voragem.



São Paulo, 01 de julho de 2019

sábado, 29 de junho de 2019

eu continuo

Simon Fella


eu continuo sonhando
sonambulando
assoviando sentido e 
emulando o vento


eu continuo dissonante
irregular
como as cidades de pedra
como as ondas do mar


sim, vou adiante
mas nos repuxos é que escrevo
nas manhãs de sol e café
quando me resguardo do tempo


eu continuo sonhando
sonambulando, em solitude
a pedra em que invisto
só ganha forma
na finitude


São Paulo, 29 de junho de 2019