terça-feira, 30 de junho de 2020

# só um


https://e-jaculation.tumblr.com/post/47337073732


É interessante esse ruído, esse único som, coado pelas aflições da noite. Aferro-me à cama, ao quarto limitado em si. E escuto esse som. É o pio das aves, o carro longe que atravessa avenidas, a voz de um bêbado perdido, sem encontrar o caminho de volta. A noite é grande, contida em si, com mil vazios que não perturbam, tão distante do sol, da luz, das outras vozes que acobertam, com o dia, a densa solidão dos homens. Nesta terra escura, que afugenta o sol, respiro o vapor da presença. Presença pouca, acertada em um só, sem mais do que o mínimo esforço de existir. Clausura. Ruína? Só som, por horas a fio, o mesmo ruído sem fio de segredo: só ser. Voz em si mesma. Verdade obscura, acolhida no instante, em que nada mais há. Só um.  

# São Paulo, 01 de julho de 2020

domingo, 14 de junho de 2020

terça-feira, 9 de junho de 2020

# não ficará na memória

será esquecido
apenas alguns de nós
mudas testemunhas 
continuarão usando os dentes
cada vez mais frágeis
para roer esses restos
que margeiam a estrada


os caminhos já sofridos
tortuosos
voltarão 
como voltaram
e voltam
- agora -
em agonias de noites não dormidas


no país insone
não há memórias
gestos sonambulantes
enquadrarão o presente
e palavras - bordões -
colorirão nossa casa


o chicote, a foice 
o holerite e o pagamento na mão
- parco -
organizarão a rotina
e beijos, felizes, constituirão a nação
que não há.


# São Paulo, 03 de junho de 2020



sábado, 9 de maio de 2020

# memorial de uma vida privada


CONSTELAÇÕES FAMILIARES | Método Psicoterapêutico
https://www.cf-evajacinto.pt/


Dona Nair, o coração de florista, acordou sete e quinze para arranjar as flores, begônias cor de laranja, exuberantes, pareciam derramar pela sala sua vontade de beleza. Pareciam derramar sobre o dia sua beleza de begônias. 


Depois ela seguiu até a sacada de seu pequeno apartamento em Perdizes, regou as plantas e ficou parada por alguns segundos escutando em silêncio a alegria festejante dos pássaros. Dona Nair, o coração passarinho, sentia dentro do peito a melodia dos bichos. Os passarinhos pareciam derramar sobre o edifício antigo sua alegria antiga de pássaros. 


Dona Nair confirmou a beleza, confirmou a doce alegria do dia. Dona Nair caminhou até a cozinha e confirmou na folhinha da farmácia: era Dia das Mães. 


E recebeu o primeiro telefonema. 


Rodrigo, seu filho mais velho, morador da Vila Ipojuca, ligou logo cedo, e enviou, numa self com a mulher e os três filhos, um "Parabéns pelo seu dia".  


Era uma pena seu Alcindo não estar mais com eles, Dona Nair comentou, depois de agradecer, o coração pesaroso. A ausência do marido já contava seis anos. Homem morre cedo - ela lamentava, o coração em frangalhos, logo após a missa do sétimo dia.


Rodrigo trazia outro pesar: com aquele vírus se alastrando pelo mundo, era uma tristeza não poder abraçar sua mãe naquele dia, grudar-se nela, transmitir seu carinho de filho primeiro, tão ligado nos sonhos de Dona Nair, tão ligado à sua sina: professor, educador, formador de cérebros e de corações, gente valente, instruída e carinhosa que o cumprimentava com devoção para onde quer que fosse. Gente que andava absorta com a nova ordem do país amado: um presidente que não se dignava a atender a emergência da situação e que, ao contrário, quando interrogado a respeito da tragédia, de proporções inéditas para toda a humanidade, comentara: E daí?


Dona Nair, senhora de idade, não tinha lágrimas para derramar pelo destino do seu povo, do qual se ocupara, em seus quarenta e cinco anos de dedicação docente, com zelo e senso de dever, atenção e carinho, princípios que ela transferira a Rodrigo, e a tantos outros e a tantas outras que resolveram seguir seus sinais, tornando-os sinais de si mesmos, sua sina, seu sonho. 


Dona Nair comentou constrangida: aquilo não era problema, poderiam conversar por telefone, trocar fotos e fazer uma chamada de vídeo para brindar. Se o presidente era um louco, não seriam eles a fazerem o mesmo. A lucidez da humanidade reclamava: era preciso, infelizmente, viver a tal quarentena. E aguentariam. 


Rodrigo e a esposa cuidando dos filhos e fazendo home-office. Os filhos metidos dentro do apartamento, procurando estudar de um jeito antes nunca visto, mas era tudo sacrifício importante, todos sabiam, e seguiam, amigáveis, temerosos, mas também esperançosos, o pacto social do isolamento.


Dona Nair passou um café, derramou-o na xícara antiga - lembrança de um congresso na Espanha, suas alegrias de professora universitária - e fez um brinde a Rodrigo. Mais tarde e seria um brinde de verdade, com vinho branco gelado. Ficou combinado. Era falar com Luís, era falar com Ernesto, os outros "meninos" de Dona Nair. 


Luís era médico e morava no interior. Ao saber das agressões físicas e verbais que os agentes da saúde vinham sofrendo pelos apoiadore do governo, telefonou para o irmão mais velho, tiveram uma conversa longa, Luís chorou de desconsolo. Como a saúde poderia ser combatida, como era aquilo de existir uma "militância contra a vida"? Dividiram lamúrias, se ajudaram com o que tinham: a teimosa esperança, sempre ela, presente mesmo ao constatarem, no interior da família, o enorme desgosto: o irmão caçula, Ernesto, morador de Pinheiros, vizinho da mãe, era defensor ferrenho do "suposto governo". 


Era um lamento que circulava na família desde as últimas eleições, quando tinha se tornado impossível conversar pelo grupo de WhatsApp. Não foi Ernesto quem decidiu, em respeito à maioria, retirar-se do embate. Foram a mãe e os irmãos, a filha de Luís, os filhos de Rodrigo. Ninguém sequer conseguia expressar a indignação e a dor, principalmente a dor, no caso dos mais velhos, principalmente a indignação, no caso dos mais novos, diante das frases que Ernesto postava no grupo: "Tem muito safado para matar neste país, ainda vamos voltar aos bons tempos militares." 


Dona Nair, o coração materno, perdoava, no fundo, e se perguntava o que tinha feito de errado. Como que um filho seu, criado por um pai e uma mãe que foram perseguidos pelo regime militar, amado por tios e tias, alguns também perseguidos, impedidos de trabalhar, e ainda um avô que foi torturado, depois exilado... Como era possível?


No dia das mães do ano anterior, Dona Nair, o coração despedaçado, sussurrou: "Nos úlimos dois anos, envelheci mais de dez". Luís completou: "É o país que envelhece". Rodrigo arrematou arrematou: "Na verdade envilece".


Todos ficaram calados. 


E Ernesto ergueu a taça risonho: "Um brinde ao Brasil! Este país agora voa!" 


Não houve brinde. 


Ernesto ergueu a voz, foi rispidez em cima de rispidez sobre os irmãos, terminando com: "Comunistas safados!", depois do que bateu a porta, trêmulo de ódio. 


E desde então nunca mais se falaram. 


Dona Nair, o coração cansando, agora que chegava aos seus setenta anos e estava há mais de dois meses enfurnada em seu apartamento, queria ver o sol que entrava na sacada, a música dos pássaros, as  corola das flores. 


E então, enquanto a carne assava no forno e ela tomava uma taça de vinho, foi com amor materno que atendeu à ligação de seu terceiro filho: 


"Parabéns, Dona Nair! Sem ressentimentos neste dia especial! Estou na esquina, vou subir para dar um abraço... Quero abraçar a a minha mãe."


Dona Nair, o coração macio, sorriu de alegria e, mesmo com enorme medo, não foi capaz de recusar: foram dez minutos e mais uma taça de vinho e logo  porta foi aberta para a entrada de Ernesto, seu filho caçula. Ela caiu em seu abraço apertado, seu beijo e foi envolvida em sua fala firme: "Mamãe, não escute esses doidos! Você tem sessenta e nova anos, aguentou de tudo, não é agora que vai se entregar!" 


Dona Nair, o coração conquistado, há um ano sem falar com o filho, comemorava com ele o seu Dia das Mães. Trocavam palavras carinhosas, atualizaram assuntos e, ao esvaziarem a garrafa de vinho, Ernesto se foi, ainda antes do almoço, para que "os frescos não falassem dele depois".


"Vai que a senhora espirra ainda hoje, e logo a culpa será minha."


Ernesto tomou o elevador. Dona Nair, o coração materno, não lhe impôs máscaras, uso de álcool em gel e os cuidados exigidos naqueles tempos de guerra. Viu a luz da aparição do filho, e se esqueceu de si.


Dona Nair, o coração animado, o sangue quente com o efeito do vinho, almoçou assistindo a uma série e, muito sonolenta, dormiu por ali algumas horas boas de descanso. 


Ao fim da tarde aceitou com alegria o convite de Rodrigo e Luís para uma festa por vídeo. Com muita alegria conversaram, fizeram brindes, as crianças fazendo algazarra. E assim se minorava o desânimo e a tristeza que tentava abatê-os dia a após dia, num cotidiano que era mais um caminhar à beira do apocalipse.


Entre as palavras de alegria, Dona Nair, o coração aniversariante, comentou sobre a visita do caçula. Suas palavras causaram espanto, os dois filhos e as esposas ficaram em silêncio. E o medo intimidou a alegria. As perguntas surgiram, contidas, educadas, mas marcadas por evidente preocupação, Ernesto passou álcool em gel? Tomou banho? Trocou de roupa? Ficou quanto tempo? Vocês se beijaram, se abraçaram? Mãe, a senhora é uma pessoa idosa. 


Mas a delicadeza impediu que Rodrigo e Luís insistissem com o tema. Dali a pouco encerraram o vídeo. E convensaram apenas entre si, tentando avaliar as possíveis consequências, os dados médicos de Luís procurando aliviar o pavor: não era tão certo, vamos apostar na sorte. E rezar. 


Dona Nair, o coração aquecido de tanto carinho, deitou em sua cama solitária e pensou em sua mãe, muitos filhos para criar, netos correndo no quintal, a galinha que ela mesma matava. Os pensamentos escorreram até o sonho, onde as imagens sobrepunham-se e os seus três filhos andavam com ela num lugar de árvores frondosas, parecia ser o Jardim Botânico ou o Parque da Água Branca. A certa altura, o marido aparecia a cavalo e com algodão-doce na mão, oferecia-lhe o doce e a levava para andar entre begônias.


Foram duas semanas para Dona Nair, o coração adoecido, precisar internar-se e, após alguma luta, entregar-se eternamente às mãos da noite desconhecida.


Lá se foi Dona Nair, 
coração de nosso tempo. 



# São Paulo, 10 de maio de 2020.


quinta-feira, 9 de abril de 2020

# veneno da madrugada


https://br.pinterest.com/pin/459648705719747274/?

não há fé
não há fresta
não há festa
e se houver
não é esta

não há mais

nem a mais
ademais
carnavais

sem futuro

ou furo no escuro
só muro
murro
urro
e sussurro

há têmporas intempestivas

não tempo, não horas, não dias
há azar
não acaso
só casos
e descasos

o que mata

ou desmata
não tem carta
descarta
a carne descarnada

vai pelo jeito

do desajeito
vai pela via
que se desvia
e se esvai
no desvario
vazio
pueril
ou senil

não há palco nem talco

não há espaço nem laço
não há bar nem mar
não há prece nem messe
ou quermesse
ou benesse

não há cura

ou loucura
nem pura bravura

não há chão

nem balão
nem pião
não há mão
ou irmão
- não há pão!

no outono

sem sono
nem a mera quimera
só espera
não da nova era
para nossa esfera
mas de pavorosa besta-fera

mais nada

apenas o veneno da madrugada

tão difícil de engolir



# São Paulo, 10 de abril de 2020


domingo, 15 de março de 2020

# até o fim



as canetas?
consumo-as 
até o fim
os isqueiros e as noites
também
- até a última chama


o alfabeto insisto 
em percorrer
como ave no céu
que não conhece pouso


a bebida - água, vinho, café -
até o último gole


e o amor
até o afogamento


o esqueleto, 
os ossos
gasto 
até o último cálcio


mas o mundo não
o mundo não sei abarcar




# São Paulo, março de 2020.




quinta-feira, 12 de março de 2020

# o amor em poucos móveis



Vamos simplificar
O amor em poucos móveis
Vinho e música da casa
Em dias de semana
Antes de dormir
Amor sobre lençóis simples e lavados
Sob a água do chuveiro
Morno
Beijo achado entre as conversas longas
Lua vem, lua vai
E sol nasce
Novamente mãos dadas
Comprar pão de manhã
Fazer sopa à noite
Contar casos, juntar dados
Para fazer um presente
Sem promessas



# São Paulo, 12 de março de 2020


sábado, 29 de fevereiro de 2020

# era seu sonho


https://dreaminginthedeepsouth.tumblr.com/


as afirmações do mundo são ambíguas
não vão lhe salvar
filho de sal e saliva
sede à beira-mar

era seu sonho juntar-se a esses homens  
era seu sonho ser como eles
era seu sonho sonhar os sonhos deles
e continuar, sem frenesi, seu árduo trabalho

você chegou quando a luz se apagava 
e o tormento já era incomensurável
terríveis as faces clementes, terríveis as dores -
descarnadas - da humanidade

foi profundo chegar a esse poço e alcançar essa voz
foi intenso, foi autêntico
mas não trouxe esperança
a não ser aquela de sempre 
sussurrada, quase obrigatória
como a palavra “amanhã”

você procura entender por que o caminho
considerado difícil
normalmente é o correto
isso é cristão? isso é freud?
você não vai encontrar respostas novas
são as mesmas
e sempre ambíguas
à prova da decodificação


# São Paulo, 2020


domingo, 16 de fevereiro de 2020

# anônimos


YUKO SHIMIZU

através da neblina dos fatos e fakes
vejo você, renascida com a luz da manhã
pernas ágeis 
louvor do novo dia
tortuoso, como você
sigo em frente
sem sísifo nem a imposição das palavras
o reino da linguagem pode ser uma cilada
melíflua, caprichosa
como a tarde que embrulha a realidade
embala os dias, empacota-os
declaram a morte da esperança

os jornais apresentam os cadáveres
mas não dizem seus nomes

# São Paulo, fevereiro de 2020


sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

# como é possível?



www.aereo.jor.br


Como é possível que você
Sorria, ligue a luz dos olhos
E caminhe entre os fantasmas?
Eu já baixei a voz
Parei de conversar
E o que escrevo mostro a muito poucos

Seria possível eu agir como você, com tanta força?
Seria hipocrisia?

Como é possível que você
Escreva, trabalhe, converse e se divirta
Com as pessoas?
Eu já não rio, crispei
O rosto
Sorrio por obrigação
E choro, igualmente, sem convicção

Seria possível que o sol, a água, os leves deslizes do dia
Me fizessem feliz?

Como você consegue
Enxergar
O que existe sob a sombra do que assisto
Para além dos sinais do fim do mundo
Para além desta vida ordinária
Pingada em sono ruim e alimentação precária
Doenças, guerra?
Eu pergunto com todo respeito:
Seria possível
Essa felicidade
Se o mal do mundo mora em meu peito?


03 de janeiro de 2020.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

# dezembrina



céu da cidade
plúmbea
na mais densa solidão
sol da cidade 
fuga
para o mito do trovão


nuvem
luva 
noite 
lua

nova cidade
dura
velho bordão da vila
e o vilarejo antigo 
o lugarejo
que habito há algumas décadas
miúdas 
para o anedotário das idades 
muitas


o lugarejo goteja o seu nome sobre mim
escorre sua lembrança de tédio
é um lugar por onde correm 
sorrateiros
os velhos rios 


memória e murmurejo 
as almas velhas dos índios 
do lugarejo 

# são paulo, 23 de dezembro