segunda-feira, 26 de abril de 2021

# vespertino

Tommy Ingberg




esta tarde calma

terrível

tentadora em sua inocência

abre uma frincha na parede do dia

e o olho perscruta

não o amanhã

mas os próximos séculos

quando não estaremos mais por aqui

nós 

essa espécie suicida


# São Paulo, 26 de abril de 2021


terça-feira, 6 de abril de 2021

# ironia

deuxtroistrucs


Ironia, 

pedra-lima

horror do suicida. 

Após o espetáculo 

é pó no espelho a alma do palhaço. 


Miríades, miríades, 

Fina rima à pele nova,

Esgrouvinhada no tempo, 

e mordida nas costas.  


Fina pele irônica, 

Tecelã de tecelãs

Decifra-me e calo-me

No embaraço do amor.  


Sob o ardor dos ponteiros, 

a campainha matutina do trabalho

acorda 

e se repete 

na voz de seminário 

– autômata  


Esperar, vesperar,  esperar 

A folhagem do sono

nos olhos do tempo.  

Você perdeu

no azinhavre da boca 

notas contra a natureza

- lutar contra janeiro e contra o sol. Lutar 

com ironia.  

Em tom mordaz morder o orgulho alheio


E agora, 

ardente, sardônica 

Ironia, 

Com que sagacidade nos cavou essa ruína?


a sós, 

sem luz, sem som:  

borrões de riso tresloucado.  



# São Paulo, 2007

domingo, 28 de fevereiro de 2021

# vigilância


https://www.flickr.com/photos/katiachausheva/7313028704/in/photostream


Não quero dormir
E muito menos acordar 
O tempo assoma à porta como presença inconveniente

Talvez um cão que não me reconhece
Ou então uma sombra que me esquece 

Não quero adormecer
Não quero o sono
Nem o despertar 

Para o reencontro com o mal-estar do mundo 


# São Paulo, 01 de março de 2021




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

# o cerebralista

 


livre-arbítrio

mito

na prática é suplício 

imolação

sacrifício


os deuses nos abandonaram

ou não conseguimos mais

reconhecê-los


a imagem escapa a cada movimento

deus não faz mais efeito

não ouvimos sua voz subir dos vulcões

ou rasgar os altos céus

onde gravitam agora nossos satélites 


não conseguimos aprender com as pedras

e muito menos com as estrelas

nas formas viscosas e líquidas

não vemos mais do que cores 

mas nos fartamos em reproduzi-las 

em combinações variadas

todos os dias 

para ter entre as mãos

para não deixar escapar

o que não faz mais sentido


ingerimos alimentos infectados

bebemos as piores misturas 

construímos e adotamos sistemas disfuncionais

destruímos e mudamos a matéria

para tentar obter

de toda a miséria

algum prazer




# São Paulo, 2021

terça-feira, 10 de novembro de 2020

# mínimas 2

                                              


                    o céu conserva em si seu segredo


https://chicpursuit.com/cloud-wallpapers/
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# 10 de novembro de 2020


sexta-feira, 30 de outubro de 2020

# todas as casas


https://www.deviantart.com/luviiilove/art/My-Soul-550167416



todas as casas que habito
um pouco peregrino
repõem o incômodo
da falta de contorno 
- da casa natural

todas as casas
- essas asas -
abrem possibilidades

(não fecham contas
nem amarram pontas)

todas as casas
com sua arquitetura
alva ou obscura
nada razoáveis
desarrazoadas

são todas casas aladas
portas abertas para o nada


# são paulo, 30 de outubro de 2020


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

# mínimas


o sol conserva em si denso mar de silêncio



https://www.tecmundo.com.br/ciencia/155269-nasa-esa-divulgam-fotos-proximas-sol-registradas.htm
https://www.tecmundo.com.br/ciencia/155269-nasa-esa-divulgam-fotos-proximas-sol-registradas.htm



# São Paulo, 14 de outubro de 2020


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

# sobre um pijama estragado



Foi por causa de um pijama velho, já virando farrapos, que notei uma alteração significativa em minha percepção do tempo. Ao ver o tecido com furos, puindo de alto a baixo, tanto a calça quanto a blusa (é um pijama de inverno), pensei indignado "Mas já? Comprei isso aqui foi outro dia..." Uma lufada de sanidade vem então em meu socorro: Não foi, não foi outro dia. Há pelo menos cinco anos ganhei essas peças de flanela listrada.

Então percebo que outros equívocos do tipo vêm ocorrendo. Passando por ruas conhecidas, me espantam as mudanças no comércio. A FNAC de Pinheiros estava aí outro dia. A padaria Letícia da Heitor Penteado também: outro dia. O meu bar preferido, o BH da rua Augusta, foi reformado esses dias. Também a linha verde do metrô, até outro dia, terminava na Ana Rosa. Não, nada disso é recente, me alertam os conhecidos: esse outro dia foi há cinco, às vezes dez ou mais de dez anos.

Claro que São Paulo é um prato cheio para pessoas com esse tipo de problema: a cidade muda a cada dia, numa velocidade vertiginosa. Bares, botecos, baladas, bibocas abrem e fecham num piscar de olhos.

Mas a culpa não é só da urbe e sim também de minha memória equivocada, pois o lapso se aplica não apenas às referências da cidade, mas a um pijama estragado. Esse livro Crepúsculo saiu há pouco. Essa nova onda Netflix. O novo aplicativo chamado Instagram. (Os mais infantis ou juvenis conheço um pouco pelas minhas filhas). São algumas de minhas frases miseravelmente equivocadas, meu modo relapso - lapso ou colapso - na lida com o tempo, ou melhor, no entendimento sobre a duração das coisas ou, apenas, o avançar de minha idade.

Estamos envelhecendo o tempo todo, alguém poderá me acudir. Sim, mas a sensação de começar a envelhecer só me pegou agora. Afinal, sem tendência genética à calvíce e aos cabelos brancos, venho sendo enganado pelo tempo mais que alguns conhecidos. Mas um dia desses - foi uma dia desses mesmo, eu juro - vi que um fio branco apareceu em minha barba. E além disso, notei outro dia - mesmo - que comecei a ganhar algumas rugas no rosto.

Não é uma sensação ruim. Sempre acreditei na passagem do tempo como fator favorável - sinto que o tempo joga a meu favor, que eu aprendo, melhoro e cada vez consigo andar pela sombra com menos desespero, talvez por esperar da vida não muito mais que paz com Dora e Maria, alegria mansa, meus livros e escritos, minha profissão de educador, cheia de desafios e delícias, os amigos e amigas que amo e com quem me entendo. E um amor que a vida me dá de presente.

Além de um pijama novinho que as pequenas me deram hoje de aniversário.

(Ia dizer que, um dia desses, surgiu uma pandemia por aí, mas não quero estragar a croniquinha de aniversário.)

Já vem chegando a madrugada: bem-vindos sejam meus quarenta e cinco anos.


# São Paulo, 10 de agosto de 2020.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

# favela

Eu tinha cinco anos de idade e alguns de meus amigos mais queridos moravam em frente à minha casa, em habitação de madeira. Era bonito ver a forma irregular como se juntavam as partes da casa e era algo inacreditável a gentileza com que me recebiam. Certa vez, interrompemos a brincadeira no quintal cercado por pedaços de pau entrançados e fomos lá dentro da casa, na cozinha, que era também a sala, para matar nossa fome. Até hoje me lembro do cardápio: farinha de mandioca com açúcar, que comemos, todos, com gulosa reverência. Toda vez que penso naquela experiência me vem à memória um prazer semelhante ao que experimento ao comer hoje o mais fino prato de restaurante sofisticado.
Saí da casa de meus vizinhos, naquela tarde, acreditando que nada, nada que me fosse servido em nosso lar remediado pudesse ser tão apetitoso.
A ingenuidade sábia da infância não reduziu à pobreza a experiência de dividir com amigos o alimento que eles ofereciam com gentileza e alegria.
A vida adulta raramente permite esse tipo de alteridade.




# São Paulo, 27 de julho de 2020

sexta-feira, 17 de julho de 2020

# paternidade


Não gostava de papo. Mandava-me trabalhar. Nunca me perguntou sobre a escola. 


Есть ли место, в мире, полном демонических сущностей, подлости и силе… #фэнтези # Фэнтези # amreading # books # wattpad



# São Paulo, 17 de julho de 2020.

terça-feira, 30 de junho de 2020

# só um


https://e-jaculation.tumblr.com/post/47337073732


É interessante esse ruído, esse único som, coado pelas aflições da noite. Aferro-me à cama, ao quarto limitado em si. E escuto esse som. É o pio das aves, o carro longe que atravessa avenidas, a voz de um bêbado perdido, sem encontrar o caminho de volta. A noite é grande, contida em si, com mil vazios que não perturbam, tão distante do sol, da luz, das outras vozes que acobertam, com o dia, a densa solidão dos homens. Nesta terra escura, que afugenta o sol, respiro o vapor da presença. Presença pouca, acertada em um só, sem mais do que o mínimo esforço de existir. Clausura. Ruína? Só som, por horas, o mesmo ruído sem fio de segredo: só ser. Voz em si mesma. Verdade obscura, acolhida no instante, em que nada mais há. Só um.  

# São Paulo, 01 de julho de 2020

domingo, 14 de junho de 2020