terça-feira, 22 de outubro de 2019

# cognatos


putaamor.com


O dia situa a solução
Sem insígnias

Os signos naufragam, dissolvem-se
por necessidade
de existir

Sobreviver à vertigem dos cognatos
é o que o presente designa

sem nos abrir horizontes
pelo contrário fechando
os que já conhecemos

reinventar 
a pólvora palavra viva

putaamor.com


                                                                                                      São Paulo, 22 de outubro de 2019.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

# objetos de mistério





um poema limpo

de um poeta de poesias

é muito pouco

um poema olímpico, de voz larga

a poesia peito-erguido

o homem sem juros

ou inconsequente

endividado

empilhado em dúvidas

o poeta de poesias

esse não

homem de palavras

lavrador de verbo

empunhador de acasos

engenheiro do sol

um homem limpo não basta

um homem olímpico

chamariz dos cristais e das luzes

altivo e de sobreaviso

um homem apolíneo

de banquetes e pompas

ser de bem, elegante

ter dentes, o relógio

custa o preço de uma ilha

as ilhas se apagam no oceano

o relógio e as traquitanas são eternas

quando morrerem arrastarão, junto, os homens

sentimentos, rostos, cheiros

lilases, azuis, clepsidras

objetos de mistério

convidando para um mundo que não conhecemos


# São Paulo, 01 de outubro de 2019





segunda-feira, 30 de setembro de 2019

# outubro sangra





Andar por entre as árvores me faz bem
Outubro se apresenta positivo
Quem sabe, andando assim, também avance
E o novo tempo 
alcance

quem sabe por milagre
surta efeito
nossa falta de jeito

Outubro é mais um fôlego na vida
Mais quente, menos triste o ano avança
Como a onda, o vento, a primavera
Como Maria, que nunca se cansa

Andar pelas ruas, afinando a arte de chutar
Pedrinhas
Brincar com as crianças
Ser uma mulher que dança

quem sabe por milagre
ou teimosia
tenha jeito
esse nosso defeito
de ser utopia

Quem sabe a dançarina
De pirraça
E por graça
Volte a ser criança

E a praça do povo
A praça do sol
A praça do sonho
Quem sabe
Outubre
Amanhã



# São Paulo, 30 de setembro de 2019.




terça-feira, 24 de setembro de 2019

# paisagens


Termina o dia e não me encontro
Estou na rua ou em algum uber

Sendo arrastado para a vida

A vida aparece nos prédios, nas calçadas
Nos vestidos coloridos se estampa
Perfumes de tecidos de minha infância

A vida habita o sol e a rua e as engrenagens da urbe

Mas precisarei encontrar-me intacto
Para correr livremente o asfalto
E articular-me novamente à vida

Quando isso acontecer, vejamos, será tarde
Esta vela estará apagada
Este copo vazio
E a vida 
nua

As contas então estarão ajustadas, zero a zero

Você apagará a luz
Eu dormirei

E ninguém nos irá iludir.





# São Paulo, 24 de setembro de 2019.


sexta-feira, 13 de setembro de 2019

# das coisas contínuas



Na maioria esmagadora 
das vezes 
em que reclamo

de opressão
ofensa 
humilhação

Respondem-me:
por que permite? 
por que deixa?

por que não oprime
humilha 
e ofende

na mesma moeda?



# São Paulo, 13 de setembro de 2019

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

# ideia à toa













Os otimistas vivem mais?
Isso é um bom negócio:
Eles fiquem com a vida,
Eu fico com o ócio.


# São Paulo, 11 de setembro de 2019


segunda-feira, 9 de setembro de 2019

# a arma quente



Quando éramos jovens
E a gaita boliviana, o vento de Dylan
Nos cabelos
E o azul nas ideias
Antigas
Quando éramos o que seríamos
Se pudéssemos ter sido

Quando éramos jovens
E cada geração beija a cega vaidade de dizer-se jovem
Até a velhice dizer, com Stones, tudo de novo

A arma quente do novo mundo
O riso fresco, o som da gaita
O baião, a malícia

Quando éramos jovens e tudo era espera para ser
O que somos
Hoje




# segunda-feira
































Falam em constelação de afetos

Teias de sentidos

Falam em geografia dos desejos

Arquitetura da imaginação

Hagiografia dos gatos

Cartografia do som


Cavocam a língua

Atrás de palavras

Porque lhes falta o mundo.


#São Paulo, 09 de setembro de 2019











domingo, 8 de setembro de 2019

# sete de setembro

Marc Ferrez, 1882






























um filósofo dizia
que a filosofia
é o furo no guarda-chuva da civilização

eu era moço quando li
mas imediatamente inquiri

que guarda-chuva
qual civilização
furar o quê

nesta minha terra
toda construção é ruína
toda estrutura é buraco
presença é falta

toda esperança é espera e toda alegria é um adeus

entre outras mil
a terra que me pariu
é a pátria amarga brasil


# São Paulo, 07 de setembro de 2019

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

# narcose



                                                    "Seremos sós entre esqueletos de petróleo e giz "
(Evandro Camperon)


onde

seus olhos

mãos, boca

posso vê-los

derretidos

na paisagem 

sem beleza

somos sem-olhos e também sem-narizes

e o paladar se foi antes da paisagem

mas fechar os olhos nunca

um ver-chumbo, um ver-pólvora

um ver-sangue seco

não sinto o paladar desde aquele

aluvião 

desde então pesadelo

narcose

não é só abrir os olhos

imbecil 

aplacar a fome

isso faz tempo que não

é sempre um roer de ossos

pedra pau 

come-se e descobre-se a morte 

mesmo assim todos se atiram à comida

a fome se impõe 

somos tíbios

temos fome

é difícil afirmar 

já fomos melhores

dizem

ou era apenas um ter-narizes

ter-olhos ter-bocas

só falamos

nem isso

comer e beber

quase animalizados

nem isso

quase robôs

nem isso

chusmas de dúvidas

ecos de esquecimentos

palavra envenenada

olhos manchados

nos pensavam deuses

nos sabemos monstros

cala essa boca

imbecil


# São Paulo, 1º de setembro de 2019



(Fuente: weheartit.com, vía cocaine-kay)



sábado, 31 de agosto de 2019

# agosto

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters


agosto se arrasta e não me mata
alcanço o fim do mês e ainda estou vivo
sangue correndo
tomo sol e café
beijo as crianças
jornal, futebol, felinos, frutas
o amor
a cidade agradece o fim do mês
que não foi muito pior do que os outros
durou
pelas calçadas pendurado no tempo
a espera em farrapos
- Acabou
o jornaleiro suspira com a eliminação de mais um mês 
na folhinha
um mês a menos
um termo do tempo consumido
para fechamentos, quitações, desastres
acúmulos, enterros
mas agosto termina e a cidade não pasma
espera, apanha nas pernas dos pretos
no ônibus cheio, no trânsito, na carestia
no riso do facínora
no incêndio da floresta
a espera em fuligem na cidade noturna
"São quinze horas em São Paulo", 
segunda-feira, dia 19
agosto consumido
quinhentos dias de prisão de Luís Inácio da Silva
“O preso político mais importante do mundo”
registrou Noam Chomsky
“Relógio da morte para a Amazônia está correndo”
registrou The Economist
sem crônica de aniversariante
me despeço
sem ressentimento
desse mês 

# São Paulo, 31 de agosto de 2019

Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

# diário



este tempo de medo
este tempo seco
este tempo roído
na faina
este tempo de mágoa
fuligem

cada vez exigindo menos da vida

# São Paulo, 23 de agosto de 2019.


segunda-feira, 19 de agosto de 2019

# porque a vida é um punhal





eu escrevo como quem arrasta o dia até a morte
como quem leva a agonia pelos cabelos 
para o sumidouro

como quem ouve tubulações fios arrepiados (o amor,
a cidade assanhada debaixo da saia) 
eco contido no túnel
grito chuvisco pardais púbis

cada pessoa se oblíqua no abismo mais sutil
cada pensamento é uma nova ida ao poço do ressentimento
tomar cafezinho, pentear-se, ver o sol, quando há

eu escrevo como com quem arrasta a cidade nas costas
seus relinchares, seus ares
eu resfolego a cidade na escrita pelas pontas dos dedos
e aqui - mais no Centro - me sinto, me sento como Mário de Andrade escrevendo

eu escrevo como quem sempre escreve, sobre escritores, 
Piva, Kolyniak, Del Candeias
sobre uma cidade vertiginosa
dentro dela
exatamente no seu centro

eu escrevo como qualquer pessoa que precisa sentar e dizer algumas coisas
como uma pessoa que precisa acender um cigarro 
ou atravessar um rio
sabe-se lá 
tudo é oco
(quando escrevo)

e eu escrevo principalmente para não deixar de escrever 
e, mais ainda, para não deixar de ler
a única tarefa digna
e há quem odeie a realidade virtual
e quem a endeuse
e continuamos - apesar do purismo
ou principalmente 
por culpa dele - 
a escrever  

eu escrevo para não terminar de escrever, para não deixar que morra esta noite, este resto de voz 
rouca 
que canta  

eu escrevo porque a vida é um punhal






  # São Paulo, 19 de agosto de 2019

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

# como quem atravessa a manhã







Que pobreza nós dois, que tristeza!
Alquebrados, moídos, atravessados de problemas
Que dureza 

Já nos fecharam o horizonte?
Os fatos se precipitarão e as notícias gritarão
Implacáveis

Nós dois, que dureza
Em que rua da cidade tomaremos sol?
Porque nos restam cidades de sol
Porque nos resta ainda amar

Que pobreza, que tristeza
Ainda nos resta um mundo inteiro a conhecer
Em cada um de nós

O que na tarde cinza reverbera
como indisfarçável vazio
Porque existe o vazio
Porque ele é indisfarçável

Apalpá-lo é impossível, senti-lo
Como quem atravessa uma nuvem
Como quem descobre o sol
Como quem atravessa a manhã

Que o calor dos dias nos aninhe em seu ventre
E nos soprem segredos os ventos
Amanhã
mañana
este é o tempo do amor.


www.eccovediamo.com


                  
# São Paulo, 02 de agosto de 2019

quinta-feira, 18 de julho de 2019

noche





No meio da cidade fria

No centro da vila

Perto do Pateo do Collegio

Não muito longe do marco zero

Devoro em você

Esta noche