sábado, 25 de fevereiro de 2012

entulhos (V)



/Imagem de Alfred Kubin/

Espero que não venha.

Deixei prontinha a seleção de músicas. E até servi o vinho.

Se ela vier?

Passei a tarde toda ruminando isso, mergulhado em sombras, pestanejando.

A verdade é que não durmo há duas noites já e, durante o dia, caio em pequenos cochilos. Isso vem desde o maldito convite.

Os tempos eram bons, depois das férias, com seus dias longos e suas noites quentes, com todo o peso que se derramava sobre a minha cabeça para que eu de modo algum, jamais, pudesse descansar meu corpo. O silêncio não me era permitido, e na melhor das hipóteses tinha as vozes das aves. Gorjeios não; arrulhos.

Nem um dia sequer de descanso. Porque o trabalho da cabeça prosseguia, mesmo em dias sem Seu Mário, mesmo em dias sem seus pombos.

No entanto, as coisas iam bem porque as férias acabaram e alguns dias depois a luz da rua não me feria mais os olhos. Eu sobraçava a pasta, empacotado em meu batido paletó.

Vivi dias luminosos e, definitivamente, não: eles não feriam os meus olhos. Falei com os colegas, bebi café e tive parte em conversas realmente agradáveis.

Na sala de aula, tudo transcorreu muito bem. As aulas fluíam plenamente, o meu corpo, a minha voz, a articulação das palavras, tudo aos poucos ia se engrenando como deve ser. Os ralhos, as piadas, os momentos altos e os mais calmos, a dinâmica de sempre, os alunos em geral pessoas muito queridas.

No período da tarde, eu trabalhava nas lições, corrigia material, lia os jornais. À noite o sono chegava, me levava lentamente. Eu estava tranquilo, seguro, envolvido na cápsula dos dias.

Foi então que ela me apareceu, num feriado que teimava em prosseguir. Fiz a limpeza dos papéis, anotei os planos de aula, corrigi lições, depois fiquei rabiscando folhas em branco, achando que me entenderia com a literatura.

Bobagem... Dois cigarros apagados e coisa alguma que valesse reler.

Deitei-me, e uma nuvem branca formou-se em meu entorno, envolvendo-me em paz e doçura.

Mas pelas sete da noite acordei alvoroçado com os estrondos, fogos, buzinas, música alta pela vizinhança. Resolvi abandonar o quarto, passei água no rosto, vesti-me e logo em seguida já seguia pela rua. Senti fome, pensei em sentar em algum canto pela redondeza pra comer.

A nuvem branca continuava em meu entorno, e, embora atenuasse a balbúrdia de sons e de luzes - carros zunindo na avenida, com seus faróis devoradores, música e falação que me feriam os ouvidos -, formava agora, ela mesma, um turbilhão em seu centro. Senti tontura, sede, fraqueza nas pernas e resolvi sentar-me no primeiro bar que encontrei.

Pedi um sanduíche e uma garrafa de cerveja.

O sanduíche, devorado em poucas mordidas, fez-me bem, e a cerveja restabeleceu-me o ânimo. A nuvem branca dissipou-se e notei - já terminando uma nova cerveja - que alguma excitação me embalava e me fazia buscar com os olhos o movimento do ambiente, frequentado por homens de meia-idade, alguns poucos jovens. Era um lugar que eu conhecia de passagem.

Depois da terceira cerveja, resolvi me levantar e sentar-me ao balcão, ao lado de um grupo de pessoas mais novas que eu, uns rapagões fortes de vinte e poucos anos, umas mocinhas também, da mesma idade. Provavelmente eu quisesse entabular conversa, me expandir.

O assunto dos rapazes era-me inteiramente desinteressante. Falavam da Copa do Mundo e de "nossa" Seleção. As moças iam pelo mesmo tema, mas facilmente derivavam para outros, empolgando-se em especial com a beleza de outros países, outras paisagens, outros povos.

Aborreciam-me igualmente os comentários delas, porque eu nunca conheci país algum a não ser este, e há muito tempo não saía sequer dessa cidade, lugar horrível cuja existência sempre lutei para ignorar, vivendo sistematicamente num casulo. Eu já embarcava nessas conclusões, me recolhendo aos poucos à insignificância sombria, quando surgiu na rodinha uma nova presença.

Apresentou-se como Helena.

Tentei dizer a ela que nos conhecíamos - uma noite num apartamento, uma garrafa de vinho, alguns CD´s de jazz? - mas decidi ficar calado.

Ela sentou, serviu-se de uma garrafa, por acaso a que eu havia pedido, e perguntou:

- Você chegou há muito tempo?

Não havia nuvem branca em meu entorno, nem turbulência na rua. Havia só dois olhos e uma boca me falando, e os olhos e a boca eram a noite, a noite inteira, com todas suas nuvens e suas turbulências. Com suas turbinas.

Antes de sair do bar já muito bêbado, deixei meu endereço com ela, num guardanapo de papel.

Segui andando pela rua e desde então não pude conciliar o sono, e não me esqueço.

Ontem saí pela manhã e comprei vinho, frutas, pães e flores. Passei o dia imaginando sua chegada triunfal. Via um vestido florido, um par de sandálias, pedaços soltos de mulher. Arrumei e rearrumei os cantos todos do quarto, espanejei os livros.

Abro o vinho e começo a beber, vou esfarelando as corolas das flores. As frutas apodrecerão com os dias. E o pão, duro como pedra, como o rancor e o silêncio, será comido lentamente.


(São Paulo, verão de 2002)

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