sábado, 11 de agosto de 2018

eu gostaria de escrever uma crônica...




... que todo mortal repetisse, e que fosse tão repetida que deixasse de ser minha. 

"Meu ideal seria escrever uma crônica...", Rubem Braga, "Eu preparo uma canção", Drummond. 

São muitos os adiamentos, muitas as abnegações, e - tamanhas - que neste ano não farei uma crônica de aniversário. Não há tempo para isso. 

Me interno num hotel da Avenida Ipiranga e escrevo a minha tese sobre Graciliano Ramos e João Antônio.

Mas saio de manhã, para além das onze já, e vejo os tipos do centro. É uma boa, uma excelente forma de reencontrar a cidade, perto dos desmazelados que gritam a plenos pulmões para vender uma capa de celular. São todos filhos de Fabiano, são todos merdunchos de João Antônio. 

Penso na importância de se fazer aniversário, e penso profundamente em minhas filhas, que me veem agora com 43 anos, cheio de orgulho de minha paternidade, cheio de sonhos para viver com elas, cheio de vontade de um dia mostrar, às duas, o centro de São Paulo em movimento. 

Por aqui elas verão a alegria, a bizarrice, a tristeza e a verdade do nosso povo. São desmazelados, cheios de mazelas. Por isso, exatamente por isso, acabo me sentindo em casa. 

Esses prédios erguidos orgulhosamente, a pompa pura dos advogados. E no chão, a submercadoria do capitalismo chinês: de mão em mão por 15, 20 reais. O camelô queria me cobrar trinta pelo par de óculos. - Ah, trinta não! - Ele desceu para 25 e me sorriu: - Assustou, é?

Eu me assustei de alegria - e foi, afinal, o que motivou esta minha breve redação - ao receber um telefonema da Ótica Cotoxó. 

Uma voz distante chegou pelo celular, desconhecida, até impessoal: era um funcionário antigo da ótica onde faço e conserto meus óculos. 


- Alô, você é o Fulano? - Confirmo. Então vem a fala decorada e ao mesmo tempo carregada de alegria sincera:
Em nome da Ótica Cotoxó eu desejo ao senhor um feliz aniversário!
Eu, também sinceramente agradecido, soltei um riso e comentei: 
- Vocês, hein, todos os anos! Já faz mais ou menos uns cinco!
- São seis anos, senhor Fulano!
- Uau! - E ri mais um tanto.

Então eu escrevo esta crônica em nome dos desconhecidos, em nome das pessoas que por acaso ouvirão uma história assim de um aniversariante, aos 43 anos, no centro da cidade, sentindo-se de volta a si mesmo por estar integrado a seus concidadãos, alguém que sentia saudade de se comover com um gesto humano desinteressado, divertido, de felicidade gratuita. 

São duas histórias envolvendo óculos. Uma da pequena burguesia da Pompeia, outra de um camelô da esquina da Ipiranga com a rua Santa Ifigênia.



A primeira é a dos óculos de grau, representante da ordem, a máscara do homem de trabalho. A outra é a dos óculos escuros, um falso rayban, barato, um "estraga-vista", que abate a luz ofuscante e me permite tomar um banho de sol.




É bom abrir os olhos para ver, construir conexões, e é fundamental também restringir a luminescência ofuscante do dia, a luz da razão também cega, disseram, o realismo também restringe.



Eu gostaria de escrever uma crônica para um homem ou uma mulher que alcança a alegria de reencontrar sua terra, e acarinha a ideia de como a apresentará a suas crianças, de como abrirá horizontes e rasgará os véus que a vida burguesa proíbe: a vida pura, com cheiro de fruta aberta oferecida e aspecto de pai com rayban de camelô.


Ficou legal? Não a crônica, minhas filhas - o rayban.



Feliz aniversário a um filho desta cidade, irmão do seu povo e pai de suas crianças.




São Paulo, 11 de agosto de 2018.



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