sábado, 7 de outubro de 2017


amor é vertigem




São Paulo, cidade finda



São Paulo de Juó Bananére, de Mário de Andrade
São Paulo de Mano Brown, de Piva
São Paulo de Ruffato, São Paulo de Beto Brant
São Paulo assobiada por João Antônio
sapato impactando o asfalto
São Paulo do samba
São Paulo operária
São Paulo preta, São Paulo italiana, São Paulo nordestina
Febre terçã da mocidade
cidade louca, cidade viva
cidade cintilante
"Nunca foi só de trabalhar
a minha Paulicéia 
Não é de sol, não é de mar
São Paulo são idéias"
(Celso Viáfora)
São Paulo da Liberdade, da Avenida Liberdade, Alex
Mário cantando a cidade na garagem da periferia
a garganta da periferia
do subúrbio
São Paulo do Bexiga, São Paulo sobretudo da Augusta
a Augusta dos bilhares, dos bares sujos, dos ofendidos e humilhados bêbados sujos
a Augusta da fedentina, a Augusta da urina
a Augusta suja
São Paulo das enormes luas da Estação da Luz
com o moicano levantado e as botas trotando às duas
três, quatro
horas da manhã
o dia começava ruidoso na avenida Prestes Maia
era gigante na fileira interminável de carros
a fila pela espera no "orelhão"
o pregão do velhinho olha a ficha
olha a ficha olha a ficha
o dia é bonito no Vale do Anhnagabaú
e ainda é mais bonita a noite 
do Anhangabaú
Caetano, Gil, Rita Lee na festa
de encerramento do mandato de Luísa Erundina
a Avenida Liberdade, a Rua dos Estudantes
a Igreja dos Enforcados, a escravidão em São Paulo
os estudantes poetas, ultrarromâticos,
bêbados delirantes
a Liberdade que eu frequentei no horário das aulas
da oitava série
manhãs geladas, luvas pretas de lã
me aventurando a conhecer a Libertade
a pé
depois no ônibus londrino
vermelho
de dois andares
me sentindo bombeiro
me sentindo herói
me sentindo gente
da Nove de Julho, da Avenidade Santo Amaro
no terminal de ônibus, com Rodrigo
meu amigo com cara de chileno
vivendo um banditismo xinfrim
entre furto e briga de rua, vandalismo, depredação
pichação
a bronca e a bordoada da polícia ferroviária
na estação Prestes Maia
eu tinha alcunha, nome de batismo
não mordia, mas estava aprendendo a latir direito, usando lábia
negociação
São Paulo de minhas divagações, São Paulo de minhas evanescências
São Paulo das dilequescências e
obsolescências
São Paulo da espera
do duro tempo da espera
a vida a conta-gotas
e uma noite de sono praticamente perdida
São Paulo da chuva impiedosa
da fome, falta de cigarro
da aflição, vida de sururu
Carolina de Jesus, que desgraça
São Paulo das muitas pretas, das muitas mulheres pretas
das muitas mães aflitas como Carolina na favela
São Paulo dos gordos ratos
das grossas sobras
da fartura e do desperdício
da vida perdida rápido
um tiro, um grito
crack
doença
aids
- A cidade é veloz coisa nenhuma... A cidade é lenta -
fala o motorista baiano
e limpa a testa com lenço, pedindo para não pisarmos no motor
suando em bicas
e nós todos pendurados, moídos, todos amassados, consumidos
todo ônibus lotado é sempre um navio negreiro
algum gênio pichou pela rua espremidos, sufocados, combalidos
da excruciante faina
as caras sonolentas, amuadas, borocochô
alguns pendurados nos ferros, como em sacrifício
um assento vaga e a polidez mal disfarça a pressa
sentou o mais próximo, sempre
essa é a regra tácita
e quem senta imediatamente fecha os olhos
dorme solto, chega a roncar
e passa vergonha
mais de uma vez dormi e pesado e passei do ponto, três
quatro paradas
acordei perto da garagem
era noite
numa rua desconhecida
diverto-me com a ideia de perder-me pelo meu próprio bairro
cigarro na mão
rindo da subversão inocente, uma cerveja a mais, um cochilo
uma escapada do serviço, uma pequena jogatina, uma pinga
São Paulo do meu tédio interminável
São Paulo da melancolia
da saudade do Ibirapuera
da música “Paulista” na voz da Vânia Bastos
São Paulo da minha banda new romantic adolescente
de minhas especulações, minhas inconclusões
São Paulo da bufonaria de Oswald
São Paulo de Mário de Andrade
São Paulo da mão de obra nordestina, mão de obra pesada, mão de obra mal remunerada
São Paulo de atropelos e naturalizações de atropelos
Cidade-pesadelo
Endinheirada, cínica, fria
viveiro da mais mundana aberração
Eu conheci os livros de João Antônio muito depois de tudo isso, bem recentemente, há apenas cinco anos, em 2012.
Em meados da década de 80 - descobri lendo as biografias e autobiografias do autor, ele vem como jornalista fazer cobertura da campanha de embelezamento da cidade, para o desenvolvimento do setor turístico e do comércio
depois de anos vivendo no Rio de Janeiro
e registrou em “Abraçado ao meu rancor” (1986)
suas melancólicas impressões sobre a cidade
sua indignação
Ao se deparar com a nova São Paulo, João Antônio conclui que
"A cidade deu em outra" ela ganhava definitivamente o lugar de capital dos negócios, se elitizava, mantendo o alto índice de desigualdade, com uma elite esnobe e antipopular, que consumia o luxo material e propagava o lixo intelecual
O paulistano médio tem espírito tacanho, imaginação curta
Pelas periferias, imperam os jargões da prosperidade alcançada por meio de duros sacrifícios pessoais. E assim, mais ou menos ao modo de um Paulo Honório, vão surgindo os novos-ricos da São Paulo americanizada
Em 2017, eis que temos um novo higienista em São Paulo
O sujeito mais limpinho de todo a região Sudeste
Em 1906 o Rio de Janeiro viveu sua reforma urbana eurocentrista elitista, antipopular, quis banir do centro a população preta humilhada, ofendida, pisada, expelida
São Paulo não ficou atrás. São Paulo tem favela em todas as zonas da cidade e construiu para si mesma um novo centro, nem se ocupou de destruir o antigo, apenas o abandonou
O centro perigoso à noite, o centro do assalto, do roubo, da briga
O centro disputado a tapa, na base da bala
O centro antigo feio, terrivelmente feio das prefeituras do PSDB

Encerro perguntando o que diria, amigos
João Antônio sobre a São Paulo
de João Dória?
Talvez, quem sabe:
- Continuarei com você, cidade finda

"A cidade deu em outra"

Quem é que sabe?

25 de janeiro de 2017

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

terça-feira, 8 de novembro de 2016

golpe



fotografia de frederico kilian
é  tempo o que tenho
minha filha
para te oferecer

é tempo o que tenho a entregar
para o amor

este coração rancoroso 
vendo o riso escorrer (lodoso) das bocas boçais
o ricto de sempre 

o tempo em conta-gotas
continua escorrendo
uma lágrima por segundo
no coração da Libéria, miha filha, na Eritréia,
em todo o mundo

nas construções precárias, nas lojas, 
nas ruas, nas esquinas, 
na faina dura da casa
com seus tentáculos de tempo

na tentativa e no erro, minha filha, 
me entrego fausto à vida 
seguindo a linha do asfalto
atravessando o viaduto
a pé, você sabe
procurando pelo mar 
em plena avenida


e os olhos vazios dos mortos 
os corpos empilhados
as frontes sujas de sangue

a palavra
quer engravidar
de sonhos, 
filha, 
de moinhos de vento


o lugar da memória, de mariana falcão

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

domingo



/Imagem de Odilon Redon/


domingo é o mais cruel dos dias
com seus azuis minguando pelo chão da
tard

e é mais cruel

(e mais mordaz)

a noite de domingo

na música arrastada do evangelho 

na fria e desleal face do espelho

domingo é um cativeiro


(São Paulo, maio de 2005)




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

finado



Neste dois de novembro eu penso em Alaor Guilherme Christiano. Não só na sua morte, mas principalmente em tudo o que ele foi enquanto pôde tocar o que se tem para tocar nesse lugar incompreensível a que chamamos vida. 
Pensar em Laor me faz pensar em Saramago: "o muro que separa os vivos uns dos outros não é menos opaco que o que separa os vivos dos mortos". (O ano da morte de Ricardo Reis. Cia das Letras, 2011, p. 305).

Há muitas formas de vida, como também há muitas formas de morte.

Laor viveu como trompetista e fiscal da CMTC. Viveu também como bêbado e boêmio. Foi depois um enfermo zeloso e mais tarde um enfermo abusado. Foi um avô apaixonado e divertido. Laor também foi um homem homem amargo e resmungão.

Ele morreu também muitas mortes. Morreu quando viu seu pai sendo sendo carregado para baixo de uma sombra 


pelo álcool no interior de São Paulo, e com essa vieram sucessivas outras mortes que eu não registrar.

Sei que morreu de novo pelos seus sessenta e poucos anos, quando apagou a chama do trompete e o câncer na garganta distorceu sua voz, sua boca, seu rosto, sua imagem. Retalhou-se em pouco tempo a cara do meu vô; ele passou a ser, picturalmente, outro homem.

Morreu também quando voltou do hospital, um canudo metido da narina até o estômago, e eu fugido pro quintal dos fundos, jamais querendo olhar aquele "falso Laor".

Morreu fisicamente de vez no ano de 1998, deixando-me arrasado, assustado, com a sensação de ter perdido alguém pela primeira vez na vida - não é verdade, outros conhecidos já tinham seguido antes -, alguém pra valer, alguém de verdade.

Alguém em quem pensar num dia dois de novembro.

Fui avisado de sua morte pelo telefone. Juntei suas roupas no armário, separei a veste mortuária que o envolveria no caixão, depois de conduzir minha avozinha surda e desesperada para diante de uma imagem de Nossa Senhora e uma vela e rezarmos, abraçados, entre lágrimas. Ela surda, ele trompetista. O ruído do metal devia tocá-la pelos olhos de Laor, por sua alegria, bêbada ou sóbria. Minha avó aprendia português com ele. "Ele me ensinou tudo", ela disse, naquela tarde de poucas palavras.

Laor é a única pessoa com quem sonho intensamente pelo menos uma vez por ano, a única pessoa por quem sempre peço para que, lá nas longitudes, esteja, não exatamente descansando, mas tranquilo, de preferência tocando alguma coisa com que se possa fazer som. Deve existir alguma forma de fazer isso, lá nos longínquos do mundo...

Sei que sexta-feira de finados, hoje, quis levar Dorinha para ver o circo. Uma vontade que apareceu assim que acordei. Lelê gostou da ideia, Dodó também; Maria iria fosse como fosse - mas a verdade é que a bichinha parece aprovar tudo, com aqueles olhos matinais esplendorosos. Tudo arrumado, partimos ao circo mais próximo.

Entre as histórias que conto pra Dora, Laor por vezes aparece. É um velhinho simpático e engraçado, entusiasmado e sabichão. Esse velhinho certa vez levou o neto de oito anos para o circo.

Dorinha vibra com a descrição das luzes, a armação da lona tão particular e a escolha decisiva antes de entrar para o espetáculo:

"- Pipoca, algodão-doce ou maçã-do-amor?"

- Só um, papai?

- Sim, tinha escolher um só, porque Laor não tinha dinheiro, não. Mas também era melhor assim, pra curtir melhor... Qual você quer, Dodó?

Pensa um pouco:

- Pipoca.

- Certo.

Então Laor entrava com o neto sob as luzes faiscantes, o cheiro de lona, de ferro e de madeira. Ali estaria o palhaço. Depois o macaco. Por fim o leão - este bicho que ficara na jaula por uma semana e que o menino via sempre quando ia ao armazém. Um bicho comido de feridas. Um bicho velho, sujo e fedido. Um bicho fascinante. A meninada passava mesmo meia hora aguardando que ele se virasse, que saísse de seu sono e se arrastasse pelo interior da jaula, para admirar seu peso e sua força, num misto de medo e delícia.

Aquele bicho aparecia no tablado, saltava entre dois círculos de fogo, obedecia ao chicote do acrobata. Metia medo na plateia e também no palhaço. Ah, o palhaço... O palhaço era o parceiro da plateia, o fio que conduzia o espetáculo pelo caminho do riso, dando a tudo um contorno de coisa leve e inventada. Eram pra ele, mais que pros outros, aquelas luzes.

Pois o circo em que levei Dorinha tinha também palhaços, mas não picadeiro. Por sorte os bichos eram apenas réplicas, em tempos de consciência ecológica que não atrapalha em nada a imaginação dos que sabem e querem imaginar. O que atrapalhou foi a música estrondosa, a profusão de luzes estrambóticas e a rapidez que em tudo imperava.

A habilidade dos artistas tinha a forma fria de uma eficiência. A sucessão dos gestos ousados e até mesmo arriscados, pela repetição e insistência, tornavam-se mecânicos - não mágicos -, e em alguns momentos concluí que parecia ver, não corpos desafiando os sentidos, mas uma competente exibição de computação gráfica.

E Dorinha? Teve medo da música e manteve os ouvidos tampados com as mãos, demorou a animar-se com a presença dos palhaços. Eu ainda acho que o espetáculo foi pouco envolvente pela falta de delicadeza, pelo excesso. Em vez de ocupar as tradicionais arquibancadas, o público sentava-se em cadeiras distribuídas em fileiras e, em lugar do picadeiro, havia um palco. Tudo produzindo distanciamento, tecnicismo, exuberância fria, eficácia.

Mesmo assim me diverti. Dorinha também, com a pipoca que compramos ("Só uma, né, pai?", ela lembrou). Lelê, como eu, gostou com ressalvas. Maria, com os olhos sempre luzindo, se não se divertiu enganou  muito bem.

Espero ter, de alguma forma, divertido Laor, e que a distância do palco e a eficiência pobre dos acrobatas não tenham conspurcado minha humilde homenagem neste dois de novembro.

- Você viu, Dó, o circo do Laor?

- Era assim, papai?

- Não, não era, não. A gente ainda acho um outro parecido. Mas você gostou?

Fez um sim com a cabeça, visivelmente feliz.

Essa alegria chega até Laor?


(São Paulo, 02 de novembro de 2012.)


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

entulhos (I)



/Imagem de Alfred Kubin/
  
Aferro-me à cama de novo, no abafamento do quarto, ouvindo as bicoradas dos pombos. O ruído ocupa noites inteiras, atravessando o silêncio, misturando-se aos sonhos.

Recentemente iniciaram a construção de um prédio aqui do lado. O barulho das máquinas, das sete às cinco, encobre o arrulhar maldito das aves. E olha, isso me acalma. Mas quando a noite vem a cantilena retorna, no mesmo tom lamentosa, até a manhã seguinte.

Fico fumando à beirada da cama, acreditando que a cabeça finalmente agora deva explodir e que a cidade explodirá também, se tudo der certo, em pouquíssimo tempo.

Acordo de manhã e não vejo nada disso. Está tudo igual, as máquinas trabalham, os homens da construção se agitam, cantam e atiram piadas, eu posso ouvi-las daqui. Os pombos são liberados para um passeio, ocupam duas longas extensões nos fios de eletricidade. E seu Mário sorri com o sol na lente dos óculos.

Esta noite outra vez não dormi. Três horas da tarde e estou ainda de pijama, sentado à cama, ou caminhando de um canto a outro do cômodo acanhado. Três passos médios e um curto, é o que ele mede. Às vezes, já esgotado, viro à esquerda e chego ao banheiro. Completo então cinco passos. E é isso. Me deito.

As criaturas vestidas de colete amarelo me observam, se aproximam, vêm andando com calma, elas me cercam. Logo percebo que é inútil fugir. Forma-se um círculo ao meu redor, as bocas se arreganham risonhentas, molengas, quase se desfazendo. À tentativa de um gesto, a mão calosa se gruda à minha pele. E depois dela vêm outras, e braços, e rostos. Um rosto. O riso acanalhado se aproxima. Boca de dentes tortos  e amarelos, falando lentamente: Seria um gesto só de caridade.

Eu então me exaspero, me agito, saio ao quintal, reviro-me, meto os pés em poças d´água, mandando tudo aos diabos.

Às vezes penso em andar pelas ruas, rodar por aí, procurar companhia num bar.

Mas aferro-me à cama, e já são onze horas, já são onze e trinta, já são onze e trinta e cinco minutos.

Neste momento Ernesto Campos faz seu número no palco. Ao grito intempestivo da platéia ele se arroga. E até as cinco e meia beberão cerveja, rum, engolirão porções engorduradas de comida, soltando risos roucos. Carina despirá, pouco a pouco, a saia preta, a cinta liga, chutará no ar seus sapatos, para o a plateia aflita. Um velho, um jornalista entusiasmado, duas dançarinas, as noites se repetem e viram dia, se entrecruzando.

Quente, o pequeno cômodo sem luz, meu gabinete e meu quarto, parece aos poucos se estufar.

Os pombos, Seu Mário, eu aviso – eles me bicam no escuro, isso é fato. Um bacharel – Seu Mário diz – Um bacharel, veja bem, um moço lido e estudado, professor de adolescentes de família, e passa os dias a escrever.

Escrever não, Seu Mário, eu acumulo entulhos.

As bicoradas no entanto não param. Seu Mário entra de madrugada com as mãos na cabeça: Professor, professor, me ouça: sou eu, sou eu que guardo entulhos!

Ele ergue novamente as mãos à cabeça: – Estão grudados em mim, Professor, eles são meus e fazem parte de mim, estão cantando em meu peito. Chegue aqui, que os ouça.

O arrulhar é um enrolar de vozes e de vezes, é um adiamento, uma desfaçatez, porque um pombo jamais será um bomba. Então essa chiadeira não vai dar, Seu Mário, nunca vai dar, em nada.

Também tenho pena deles.

Seu Mário sussurra, desesperado, os perdigotos voejando direto em meu rosto: - Compreenda, eles precisam de mim. Chegaram bem doentes. Não podem ser entulhos!

Ele termina por dizer: Eu sou um homem doente.

Depois se recolhe e é possível ouvir seus murmúrio percorrendo o quintal: “malditos! loucos!”

O arrulho é um motor que vara a madrugada, continuamente. Talvez eu devesse ir finalmente apertar a mão de Ernesto Campos. Grande talento, livros publicados, regularmente em cartaz. Talvez devesse reverenciar os pés de Marina. Um escritor, ela diria. Sem nem um livro publicado. Um desperdício.

As vozes cantariam samba talvez, com a convicção de ser um último adeus ao Bexiga. "Mas uma epopeia à Roosevelt" – um mal-humorado sopraria – "fica impossível sem Roberto Piva".

No fundo as vozes me aliviam pouco. Risos roucos são uma forma de arrulho, eu pelo menos penso assim. Baixo a cabeça no balcão. As mãos de Carina correm sutis e cruéis em meus ombros. Baixo a cabeça para que o sangue de alguém possa escoar sobre o meu, a minha cervical para uma alma feminina.

O som dos bumbos da fanfarra (há uma escola aqui em frente, eu não lembrava disso), e as bicoradas na cabeça. Seu Mário acocorado, com a cantilena: Professor, escreva por mim. Um gesto de caridade.

Levanto-me, fico parado na penumbra. Feixes de luz atravessam a janela.

Ao diabo tudo isso, calço os sapatos, atravesso as poças d’água.

Um gesto de caridade, Professor.

Alguém não é doente?


(São Paulo, janeiro de 2002)





terça-feira, 26 de junho de 2012

lusofilias

/Imagem de Manuel Figueira/


Puchinho encrencado no porto. O repuxar do mar espumando a vontade da ida.

Um poeta e um sabiá. Separações atlânticas, sincera sede das ilhas.

Puchinho e esse idioma malhado, sangue e fonema fecundos. Essa mistura. Pasárgada vista no céu de um labirinto, por entre grades frias, numa gaiola.

Puchinho a ver navios se revezando entre ficar e partir. O repuxar dos sonhos embalalados pelos batelões da Company Oil.

Rememorar pra fazer viva a encenação dos mortos?

Um chamo que solta afinal voa curto no espaço, ecoa fraco entre os vapores. Quiçá tenha caído no mar e escumado entre as ondas, buscando a outra Sãocente, salgando o sangue e também a saudade. Essa palavra transatlântica.



(São Paulo, outubro de 2011)


quarta-feira, 20 de junho de 2012

resquícios do leste



"Para o júbilo 
o planeta
está imaturo"


Casa-Museu Maikóvski: a velhinha tenta me explicar que é proibido filmar o quarto onde, com um tiro de revólver, suicidou-se o poeta.
Inutilmente.

(Moscou, janeiro de 2007)


resquícios do leste





Manhã cinzenta na cidade, dez graus negativos: "Existe no homem um vazio do tamanho de Deus." 


(Moscou, janeiro de 2007)

sábado, 25 de fevereiro de 2012

entulhos (V)



/Imagem de Alfred Kubin/

Espero que não venha.

Deixei prontinha a seleção de músicas. E até servi o vinho.

Se ela vier?

Passei a tarde toda ruminando isso, mergulhado em sombras, pestanejando.

A verdade é que não durmo há duas noites já e, durante o dia, caio em pequenos cochilos. Isso vem desde o maldito convite.

Os tempos eram bons, depois das férias, com seus dias longos e suas noites quentes, com todo o peso que se derramava sobre a minha cabeça para que eu de modo algum, jamais, pudesse descansar meu corpo. O silêncio não me era permitido, e na melhor das hipóteses tinha as vozes das aves. Gorjeios não; arrulhos.

Nem um dia sequer de descanso. Porque o trabalho da cabeça prosseguia, mesmo em dias sem Seu Mário, mesmo em dias sem seus pombos.

No entanto, as coisas iam bem porque as férias acabaram e alguns dias depois a luz da rua não me feria mais os olhos. Eu sobraçava a pasta, empacotado em meu batido paletó.

Vivi dias luminosos e, definitivamente, não: eles não feriam os meus olhos. Falei com os colegas, bebi café e tive parte em conversas realmente agradáveis.

Na sala de aula, tudo transcorreu muito bem. As aulas fluíam plenamente, o meu corpo, a minha voz, a articulação das palavras, tudo aos poucos ia se engrenando como deve ser. Os ralhos, as piadas, os momentos altos e os mais calmos, a dinâmica de sempre, os alunos em geral pessoas muito queridas.

No período da tarde, eu trabalhava nas lições, corrigia material, lia os jornais. À noite o sono chegava, me levava lentamente. Eu estava tranquilo, seguro, envolvido na cápsula dos dias.

Foi então que ela me apareceu, num feriado que teimava em prosseguir. Fiz a limpeza dos papéis, anotei os planos de aula, corrigi lições, depois fiquei rabiscando folhas em branco, achando que me entenderia com a literatura.

Bobagem... Dois cigarros apagados e coisa alguma que valesse reler.

Deitei-me, e uma nuvem branca formou-se em meu entorno, envolvendo-me em paz e doçura.

Mas pelas sete da noite acordei alvoroçado com os estrondos, fogos, buzinas, música alta pela vizinhança. Resolvi abandonar o quarto, passei água no rosto, vesti-me e logo em seguida já seguia pela rua. Senti fome, pensei em sentar em algum canto pela redondeza pra comer.

A nuvem branca continuava em meu entorno, e, embora atenuasse a balbúrdia de sons e de luzes - carros zunindo na avenida, com seus faróis devoradores, música e falação que me feriam os ouvidos -, formava agora, ela mesma, um turbilhão em seu centro. Senti tontura, sede, fraqueza nas pernas e resolvi sentar-me no primeiro bar que encontrei.

Pedi um sanduíche e uma garrafa de cerveja.

O sanduíche, devorado em poucas mordidas, fez-me bem, e a cerveja restabeleceu-me o ânimo. A nuvem branca dissipou-se e notei - já terminando uma nova cerveja - que alguma excitação me embalava e me fazia buscar com os olhos o movimento do ambiente, frequentado por homens de meia-idade, alguns poucos jovens. Era um lugar que eu conhecia de passagem.

Depois da terceira cerveja, resolvi me levantar e sentar-me ao balcão, ao lado de um grupo de pessoas mais novas que eu, uns rapagões fortes de vinte e poucos anos, umas mocinhas também, da mesma idade. Provavelmente eu quisesse entabular conversa, me expandir.

O assunto dos rapazes era-me inteiramente desinteressante. Falavam da Copa do Mundo e de "nossa" Seleção. As moças iam pelo mesmo tema, mas facilmente derivavam para outros, empolgando-se em especial com a beleza de outros países, outras paisagens, outros povos.

Aborreciam-me igualmente os comentários delas, porque eu nunca conheci país algum a não ser este, e há muito tempo não saía sequer dessa cidade, lugar horrível cuja existência sempre lutei para ignorar, vivendo sistematicamente num casulo. Eu já embarcava nessas conclusões, me recolhendo aos poucos à insignificância sombria, quando surgiu na rodinha uma nova presença.

Apresentou-se como Helena.

Tentei dizer a ela que nos conhecíamos - uma noite num apartamento, uma garrafa de vinho, alguns CD´s de jazz? - mas decidi ficar calado.

Ela sentou, serviu-se de uma garrafa, por acaso a que eu havia pedido, e perguntou:

- Você chegou há muito tempo?

Não havia nuvem branca em meu entorno, nem turbulência na rua. Havia só dois olhos e uma boca me falando, e os olhos e a boca eram a noite, a noite inteira, com todas suas nuvens e suas turbulências. Com suas turbinas.

Antes de sair do bar já muito bêbado, deixei meu endereço com ela, num guardanapo de papel.

Segui andando pela rua e desde então não pude conciliar o sono, e não me esqueço.

Ontem saí pela manhã e comprei vinho, frutas, pães e flores. Passei o dia imaginando sua chegada triunfal. Via um vestido florido, um par de sandálias, pedaços soltos de mulher. Arrumei e rearrumei os cantos todos do quarto, espanejei os livros.

Abro o vinho e começo a beber, vou esfarelando as corolas das flores. As frutas apodrecerão com os dias. E o pão, duro como pedra, como o rancor e o silêncio, será comido lentamente.


(São Paulo, verão de 2002)

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

resquícios do leste




O Nievá, e a consciência torturante de um vazio que não se rende.


(São Petersburgo, janeiro de 2007)

entulhos (IV)


/Imagem de Alfred Kubin/


Mas nada que não me cansasse mais ainda a fala. Nada que não me fizesse sucumbir ainda mais. Era a voz de veludo, era a vez, era ela, era quem?

Era Helena.

A palavra roçou o meu rosto. Tanto assim que acordei, e senti o calor sufocante do dia, senti minha fome já há um tempo ignorada, a sede em minha boca cada vez mais intensa com o consumo do tabaco. No escuro (era meio-dia?) acendi um cigarro, e o máximo que pude fazer foi servir-me um gole d´água.

Muito bem, mais um nome inventado. Mais um rosto no escuro, mais uma forma intocável. Mais insularidade.

O outro como continuidade do mesmo. O outro como entreposto para um pórtico fechado. O outro como continuidade.

É assim a doença?

Asas e bicos nos sonhos.

Era assim?

Seu Mário diria que amar é reunir seres aflitos num viveiro. (Os pombos, o câncer). Eu ouviria isso, se pudesse escutar suas palavras, ou se alguém (eu jamais) pretendesse escrevê-las.

Seu Mário e seus arrufos, que imagino. Eu os ouviria, se me dispusesse.

A voz dos outros (mesmo a de Ernesto Campos, amigo meu) já me causa arrepios. Em geral, os sons que saem de boca humana se misturam em meus ouvidos e se convertem em acordes distorcidos, sopros agudos, cortantes, terríveis para minha audição a cada dia mais sensível.

Seria assim também a voz de Helena, com o passar do tempo? - esse tumulto ruidoso. Um ser aflito engaiolado? Como tudo o que se move do passado e deseja ganhar algum lugar entre estes dias, como tudo o que pretende lançar seus sinais de vida, respiração, hálito, feminilidade, coisas da ordem do espanto, vida em comum, luz do sol e dos postes, labaredas, restaurantes, crepitações, brilho de olhos.

Brilho de olhos de pássaro. Asas e bicos nos sonhos. Brilho e frescor de um jato d'água alcançado na pia, para afastar o tumulto.

Puta que o pariu, Seu Mário! Eu tenho todo dia enterrado esses pombos, sentindo em minha boca suas penas, a garganta ressentindo o sumo horrível dessa carne espumante.

E agora vem Helena.

Concentrado nesse nome, tento abafá-lo, convertê-lo em imagem obscura, numa mancha, um borrão, alguma forma de existência parecida com lembrança, com esta paralisia com que posso orquestrar - só assim - o espírito quieto do mundo.

(São Paulo, janeiro de 2002)