sexta-feira, 14 de junho de 2019

um pássaro


Se tudo em volta for violência ou saudade
E não restar muito mais que silêncio
A poeira da estrada impossível
Cobrirá de uma vez essa casa
Ficaremos atônitos - vivos!
Escutando os rumores das asas
Fermentando vontade e coragem
Para a força do dia seguinte
Que gritará na calmaria da várzea
Nas avenidas
Na copa das árvores

Como um pássaro.



São Paulo, 14 de junho de 2019.


domingo, 26 de maio de 2019

banir-se de si


é muito fácil engordar
cariar os dentes
tornar-se adicto
aditivar-se
descer na vida
escorregar, ferir
é quase natural nos esgotarmos
em desentendimentos, desencontros
é muito curto o fio da vida
alguém sussurra
antes da explosão
o voo estraçalhador
a fúria de um tufão
ondas bravas, imensas
espatifando horizontes
encobrindo prédios
afogando cidades
bombardeios
espancamentos
tiro certeiro da polícia
autoimolação
é fácil cair
aos poucos é mais fácil ainda
outros já dizem (mais lógicos)
que rápido é melhor
de uma vez por todas deixar essa infâmia
é muito fácil falhar
fracassar
sucumbir
frente à situação
e também é fácil degradar-se
rolar escada abaixo
degringolar-se
ou pisar um igual
vender-se
degenerar-se
é muito fácil finar-se
arruinar-se
falir
é bem fácil diluir-se
imiscuir-se
banir-se de si


sábado, 20 de abril de 2019

demita seu poema



Demita seu poema
Ande só
O sol já baixou
Se despeça


Ande distante do vento


E demita urgentemente
Demita seu poema como quem abre mão


Esse poema
Como quem empurra esses dias para fora de casa, desfila-os invertidos na calçada
Arlequinal
Cada palavra hoje em dia
Parece transpirar
Conspiração
Toda pedra é suspeita
Na prece do dia
A manhã escoiceada na avenida
Vinte e três de maio
Toda prece é do dia
Ao insinuar a chama
Um relógio, um lamento
Ao perseguir as sombras
Do que em nosso país foi passado
Para trás

De uma fruta
Uma arma
Um anel de noivado
Uma flor
Como quem perde a mão
- pois limpá-la é impossível -
no limite da luta
o suor e o combate
por mais um dia
que nasce
entre fumaça e desprezo
café, gás carbônico
cigarros
a cidade e suas chaminés
incinerando sonho e segredo.




intervalo



Tempo de inapetência
Por favor, conduza-me pela mão
Para além da correnteza
Não me humilhe, sou novo
Me perdi um tanto no voo
E com isso perdi o viço
Mas não quero morrer de tédio
Entre o fosso e o cemitério
E aprendi mais do que isso
Respeito muito o limite da vida
Posso fazer café e servir
Distribuir xícaras na mesa 
Para todos, eu gosto
Chás, águas, frutas, pães 
Ofereço conversas longas
Sim, prefiro a amistosidade de um sorriso
Mas respeito, profundamente,
O uso moderado de palavras
A cada década elas parecem nos trair um pouco mais.

   São Paulo, 20 de abril de 2019

terça-feira, 16 de outubro de 2018

limite


nosso povo vive há mais de 500 anos dentro desse pesadelo
com alguns intervalos para breves sonhos


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Deixar queimar, deixar sangrar

Resultado de imagem para artecidade exposição de 1997 sala dos sapatos
RELAÇÕES IMPRECISAS, claudia hamerski
                                                                                                             
deixar sangrar o país
deixá-lo morrer

goteiras no hospital abandonado
vasos sanitários estourados

a boca do bêbado
o silêncio das moscas

o que é delicado se cala
ocupa gavetas

se enfronha nas conversas diurnas
na ocupação cacete

as chamas se espraiam, o fogo ondeia
o atlântico ocupado em seus projetos milenares

as crianças precisam ocupar espaço, divertir-se
as crianças precisam passear

as crianças precisam - é urgente -
gostar deste mundo

deixar sangrar o país
esfaquear, atirar, cortar

tudo é modo de moer o outro e o medo
tudo é meio de matar no outro a si mesmo

assisitir ao espetáculo do fogo
parado dentro de si

e o risco iminente de romper a platarforma
invadir casas

ocupar cidades

o perigo de sangrar o país


(São Paulo, 06 de setembro de 2018)

sábado, 1 de setembro de 2018

Não são pets

São Paulo de novo ensolarada.

O céu é mesmo indiferente ao que cavamos por aqui,
nossas ruínas.

Sorri com o mesmo sol, medonho, para as vidas imundas e sujas e famintas,
as crianças em zona de guerra,
na fome, em fila de hospitais,
à espera
ou cuspidas para as ruas, enjeitadas,
para fora do comércio
as crianças que atravessam as noites de São Paulo
tossindo, fumando,
sem paz

Mudamos tão pouco e já desistimos de novo
Demos voz às crianças e não as escutamos
Novamente vamos atirá-las a apostilas
Novamente elas se submeterão à indomável febre do progresso
Novamente elas serão apenas etapa de preparação
para o nada
portanto só espera
para o nunca
atravessando as noites de São Paulo
tossindo, fumando
doendo no coração do país

Quando verei o sol
sem esse desconsolo?

(São Paulo, primeiro de setembro de 2018)


(Stockbyte/Stockbyte/Getty Images)




domingo, 19 de agosto de 2018

sábado, 11 de agosto de 2018

eu gostaria de escrever uma crônica...




... que todo mortal repetisse e que fosse tão repetida que deixasse de ser minha. "Meu ideal seria escrever...", Rubem Braga. "Eu preparo uma canção", Drummond. São muitos os adiamentos, muitas as abnegações, e, tamanhas, que neste ano não farei uma crônica de aniversário. Não há tempo para isso. Me interno num hotel da Avenida Ipiranga e escrevo a minha tese sobre Graciliano Ramos e João Antônio.
Mas saio de manhã, para além das onze já, e vejo os tipos do centro. É uma boa, uma excelente forma de me reencontrar nesta cidade, perto dos desmazelados que gritam a plenos pulmões para vender uma capa de celular. São todos filhos de Fabiano, são todos merdunchos de João Antônio. Penso na importância de se fazer aniversário, e penso profundamente em minhas filhas, que me veem agora com 43 anos, cheio de orgulho de minha paternidade, cheio de sonhos para viver com elas, cheio de vontade de um dia mostrar a elas o centro de São Paulo em movimento. Por aqui elas verão a alegria, a bizarrice, a tristeza e a verdade do nosso povo. São desmazelados, cheios de mazelas. Por isso, exatamente por isso, acabo me sentindo em casa. Os prédios erguidos orgulhosamente, a pompa pura dos advogados. No chão, a submercadoria do capitalismo chinês: de mão em mão por 15, 20 reais. O camelô queria me cobrar trinta pelo par de óculos. Ah, trinta não! Ele desceu para 25 e me sorriu: "Assustou, é?"
Eu me assustei de alegria - e, sinceramente, foi o que motivou esta breve redação - ao receber um telefonema da Ótica Cotoxó.
Uma voz distante chegou pelo celular, desconhecida, até impessoal. Era um funcionário da ótica Cotoxó, que fica a uns quarteirões de minha casa, onde compro os meus óculos:

Alô, você é o Fulano?
Confirmo.
Em nome da Ótica Cotoxó desejamos ao senhor um feliz aniversário!
Vocês, hein, todos os anos! Já faz mais ou menos uns cinco!
São seis anos, senhor Fulano.
Que legal. Muito obrigado.

Então eu escrevo esta crônica em nome dos desconhecidos, em nome das pessoas que por acaso ouvirão uma história assim de um aniversariante, feliz, aos 43 anos, no centro da cidade, sentindo-se de volta a si mesmo por estar integrado aos seus concidadãos, alguém que sentia saudade de se comover com algum gesto humano desinteressado, divertido, de felicidade gratuita. São duas histórias envolvendo óculos. Uma da pequena burguesia reacionária da Pompeia, outra de um camelô da esquina da Ipiranga com a rua Santa Ifigênia.

A primeira é a dos óculos de grau, representante da ordem, a máscara do homem de trabalho. A outra é a dos óculos escuros, um falso rayban, barato, um "estraga-vista", que abate a luz ofuscante e me permite tomar um banho de sol.

É bom abrir os olhos para ver, construir conexões, e é fundamental também restringir a luminescência ofuscante do dia, a luz da razão também cega, disseram, o realismo também restringe.

Eu gostaria de escrever uma crônica para um homem ou uma mulher que alcança a alegria de reencontrar sua terra, e acarinha a ideia de como a apresentará a suas crianças, de como abrirá horizontes e rasgará os véus que a vida burguesa proíbe: a vida pura, com cheiro de fruta aberta oferecida e aspecto de pai com rayban de camelô.
Ficou legal? Não a crônica, minhas filhas - o rayban.

Feliz aniversário a um filho desta cidade, irmão do seu povo e pai de suas crianças.

São Paulo, 11 de agosto de 2018.


sábado, 28 de abril de 2018

ad immortalitatem


o poema colhe a esmola
de uma palavra positiva
e o poeta segue em frente
com o casaco enxovalhado
desfiando sombras na tarde
sobre a pavimentação cinzenta
o paletó a imagem derradeira
do poeta
a imagem da miséria
os farrapos dos fatos
os estilhaços da fome


a palavra fome
heresia
na escrita dos poetas de poesias
artistas-ourives
que se alimentam de fonemas
em plena fome de abril


cresce o desemprego
aborto clandestino
tortura morte horror
estilhaços nos rostos
assustados
o osso no chão sacoleja
o dia na notícia de jornal
tardio
o dia
esguio
se equilibra em solidez
na cidade


são paulo à margem da imagem
a marginal tietê
"água verdadeira", em tupi
or not tupi
não é essa a questão
o tietê, escreve o jornalista, “são mais de cento e trinta quilômetros de água
morta”, assina

o poeta da poesia colige elogios
embrulha-os em couché
o riso pálido no meio da tarde
está sem tempo
está atrasado, “morto”
repete, cansado


mas o silêncio da noite é de grande apreensão
quantas noites não têm sido assim
mesmo antes de abril?


a palavra fome
impedida no poema
pesa mais do que a flor


entre os dentes
calada
paralisada


a flor
volta sempre


na rua, no asfalto
para lembrar que ainda existe

segunda-feira, 16 de abril de 2018

maps

no google maps
estico
encurto
vejo imagens
satellites
uma saída
alguma parte do mundo que cante que dance que viva
alguma coisa que em mim sobreviva
a esta hora austera




domingo, 11 de março de 2018

notícia

estamos todos em casa
soletrando o novo mundo
enquanto a realidade
já não passa de ruína

GUERRA NA SÍRIA
REUTERS/Khalil Ashawi




sexta-feira, 24 de novembro de 2017

intermezzo

então eu te pergunto
os que carregam pianos
devem aplaudir
em pé 

[sempre em pé]
os que têm as mãos livres e podem apertar 

docemente 
o teclado?


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

TRIPALIUM

o correto talvez fosse
chamar isso aqui 
de trabalho

não consigo
isso 
é osso

se eu dissesse 
"é mais um trabalho
como outro 

qualquer"
seria covardia

ou coragem?
valentia

ou medo da última morte?

"qualquer outro
por que não?"

assume o mesmo risco do pescador
joga o anzol

pesca o aranzel do azar
continua jogando o anzol

para mais 
longe

descrevendo 
um

arco 
no rio

ou então faz como a dona de casa
que lava panelas sem fim

um trabalho como qualquer outro
onde há suor
sono

rigidez nas palavras

repetição e tédio
tipo apertar um botão

faxinar escadas 
corredores

correr com a escova 
os fedores
de um banheiro

sujar as mãos
molhar os pés

esfolar-se


depois de um avc conhecer finalmente
o sono

inútil

dos doentes

não é trabalho isso que eu faço
você também
quando escrevemos

escrever é roer os ossos
depois que o trabalho está feito