sábado, 28 de abril de 2018

ad immortalitatem


o poema colhe a esmola
de uma palavra positiva
e o poeta segue em frente
com o casaco enxovalhado
desfiando sombras na tarde
sobre a pavimentação cinzenta
o paletó a imagem derradeira
do poeta
a imagem da miséria
os farrapos dos fatos
os estilhaços da fome


a palavra fome
heresia
na escrita dos poetas de poesias
artistas-ourives
que se alimentam de fonemas
em plena fome de abril


cresce o desemprego
aborto clandestino
tortura morte horror
estilhaços nos rostos
assustados
o osso no chão sacoleja
o dia na notícia de jornal
tardio
o dia
esguio
se equilibra em solidez
na cidade


são paulo à margem da imagem
a marginal tietê
"água verdadeira", em tupi
or not tupi
não é essa a questão
o tietê, escreve o jornalista, “são mais de cento e trinta quilômetros de água
morta”, assina

o poeta da poesia colige elogios
embrulha-os em couché
o riso pálido no meio da tarde
está sem tempo
está atrasado, “morto”
repete, cansado


mas o silêncio da noite é de grande apreensão
quantas noites não têm sido assim
mesmo antes de abril?


a palavra fome
impedida no poema
pesa mais do que a flor


entre os dentes
calada
paralisada

a flor

volta sempre
na rua, no asfalto
para lembrar que ainda existe





segunda-feira, 16 de abril de 2018

maps

no google maps
estico
encurto
vejo imagens
satellites
uma saída
alguma parte do mundo que cante que dance que viva
alguma coisa que em mim sobreviva
a esta hora austera




domingo, 11 de março de 2018

notícia

estamos todos em casa
soletrando o novo mundo
enquanto a realidade
já não passa de ruína

GUERRA NA SÍRIA
REUTERS/Khalil Ashawi




sexta-feira, 24 de novembro de 2017

intermezzo

então eu te pergunto
os que carregam pianos
devem aplaudir
em pé 

[sempre em pé]
os que têm as mãos livres e podem apertar 

docemente 
o teclado?


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

TRIPALIUM

o correto talvez fosse
chamar isso aqui 
de trabalho

não consigo
isso 
é osso

se eu dissesse 
"é mais um trabalho
como outro 

qualquer"
seria covardia

ou coragem?
valentia

ou medo da última morte?

"qualquer outro
por que não?"

assume o mesmo risco do pescador
joga o anzol

pesca o aranzel do azar
continua jogando o anzol

para mais 
longe

descrevendo 
um

arco 
no rio

ou então faz como a dona de casa
que lava panelas sem fim

um trabalho como qualquer outro
onde há suor
sono

rigidez nas palavras

repetição e tédio
tipo apertar um botão

faxinar escadas 
corredores

correr com a escova 
os fedores
de um banheiro

sujar as mãos
molhar os pés

esfolar-se


depois de um avc conhecer finalmente
o sono

inútil

dos doentes

não é trabalho isso que eu faço
você também
quando escrevemos

escrever é roer os ossos
depois que o trabalho está feito




quinta-feira, 17 de novembro de 2016

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Maria




é  tempo o que tenho
minha filha
a oferecer

é tempo o que tenho a entregar
no amor

o coração rancoroso 
vendo o riso correr 
lodoso 
velho ricto dos lobos
o tempo em conta-gotas
minha filha
uma lágrima por segundo
no coração da 
Libéria e da Síria 
em todo o mundo
nas construções precárias,
nas lojas, 
nos sacrifícios da casa 
nos sustentáculos do tempo
Na tentativa e no erro, 
minha filha
assim me aferro à vida 
seguindo ao nível do asfalto
dentro de um carro
ou a pé,  
Procurando o mar, você sabe 
em plena avenida

e os olhos vivos dos mortos
a boca suja de sangue 
vivo
dos mortos?

a palavra quer recomeçar, minha filha
a palavra quer engravidar 

de sonhos
e moinhos de vento


o lugar da memória, de mariana falcão

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

domingo



/Imagem de Odilon Redon/


domingo é o mais cruel dos dias
com seus azuis minguando pelo chão da tard

e é mais cruel

(e mais mordaz)

a noite de domingo

na música arrastada do evangelho 

na fria e desleal face do espelho

domingo é um cativeiro


(São Paulo, maio de 2005)




segunda-feira, 17 de setembro de 2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

entulhos (I)



/Imagem de Alfred Kubin/
  
Aferro-me à cama de novo, no abafamento do quarto, ouvindo as bicoradas dos pombos. O ruído ocupa noites inteiras, atravessando o silêncio, misturando-se aos sonhos.

Recentemente iniciaram a construção de um prédio aqui do lado. O barulho das máquinas, das sete às cinco, encobre o arrulhar maldito das aves. E olha, isso me acalma. Mas quando a noite vem a cantilena retorna, no mesmo tom lamentosa, até a manhã seguinte.

Fico fumando à beirada da cama, acreditando que a cabeça finalmente agora deva explodir e que a cidade explodirá também, se tudo der certo, em pouquíssimo tempo.

Acordo de manhã e não vejo nada disso. Está tudo igual, as máquinas trabalham, os homens da construção se agitam, cantam e atiram piadas, eu posso ouvi-las daqui. Os pombos são liberados para um passeio, ocupam duas longas extensões nos fios de eletricidade. E seu Mário sorri com o sol na lente dos óculos.

Esta noite outra vez não dormi. Três horas da tarde e estou ainda de pijama, sentado à cama, ou caminhando de um canto a outro do cômodo acanhado. Três passos médios e um curto, é o que ele mede. Às vezes, já esgotado, viro à esquerda e chego ao banheiro. Completo então cinco passos. E é isso. Me deito.

As criaturas vestidas de colete amarelo me observam, se aproximam, vêm andando com calma, elas me cercam. Logo percebo que é inútil fugir. Forma-se um círculo ao meu redor, as bocas se arreganham risonhentas, molengas, quase se desfazendo. À tentativa de um gesto, a mão calosa se gruda à minha pele. E depois dela vêm outras, e braços, e rostos. Um rosto. O riso acanalhado se aproxima. Boca de dentes tortos  e amarelos, falando lentamente: Seria um gesto só de caridade.

Eu então me exaspero, me agito, saio ao quintal, reviro-me, meto os pés em poças d´água, mandando tudo aos diabos.

Às vezes penso em andar pelas ruas, rodar por aí, procurar companhia num bar.

Mas aferro-me à cama, e já são onze horas, já são onze e trinta, já são onze e trinta e cinco minutos.

Neste momento Ernesto Campos faz seu número no palco. Ao grito intempestivo da platéia ele se arroga. E até as cinco e meia beberão cerveja, rum, engolirão porções engorduradas de comida, soltando risos roucos. Carina despirá, pouco a pouco, a saia preta, a cinta liga, chutará no ar seus sapatos, para o a plateia aflita. Um velho, um jornalista entusiasmado, duas dançarinas, as noites se repetem e viram dia, se entrecruzando.

Quente, o pequeno cômodo sem luz, meu gabinete e meu quarto, parece aos poucos se estufar.

Os pombos, Seu Mário, eu aviso – eles me bicam no escuro, isso é fato. Um bacharel – Seu Mário diz – Um bacharel, veja bem, um moço lido e estudado, professor de adolescentes de família, e passa os dias a escrever.

Escrever não, Seu Mário, eu acumulo entulhos.

As bicoradas no entanto não param. Seu Mário entra de madrugada com as mãos na cabeça: Professor, professor, me ouça: sou eu, sou eu que guardo entulhos!

Ele ergue novamente as mãos à cabeça: – Estão grudados em mim, Professor, eles são meus e fazem parte de mim, estão cantando em meu peito. Chegue aqui, que os ouça.

O arrulhar é um enrolar de vozes e de vezes, é um adiamento, uma desfaçatez, porque um pombo jamais será um bomba. Então essa chiadeira não vai dar, Seu Mário, nunca vai dar, em nada.

Também tenho pena deles.

Seu Mário sussurra, desesperado, os perdigotos voejando direto em meu rosto: - Compreenda, eles precisam de mim. Chegaram bem doentes. Não podem ser entulhos!

Ele termina por dizer: Eu sou um homem doente.

Depois se recolhe e é possível ouvir seus murmúrio percorrendo o quintal: “malditos! loucos!”

O arrulho é um motor que vara a madrugada, continuamente. Talvez eu devesse ir finalmente apertar a mão de Ernesto Campos. Grande talento, livros publicados, regularmente em cartaz. Talvez devesse reverenciar os pés de Marina. Um escritor, ela diria. Sem nem um livro publicado. Um desperdício.

As vozes cantariam samba talvez, com a convicção de ser um último adeus ao Bexiga. "Mas uma epopeia à Roosevelt" – um mal-humorado sopraria – "fica impossível sem Roberto Piva".

No fundo as vozes me aliviam pouco. Risos roucos são uma forma de arrulho, eu pelo menos penso assim. Baixo a cabeça no balcão. As mãos de Carina correm sutis e cruéis em meus ombros. Baixo a cabeça para que o sangue de alguém possa escoar sobre o meu, a minha cervical para uma alma feminina.

O som dos bumbos da fanfarra (há uma escola aqui em frente, eu não lembrava disso), e as bicoradas na cabeça. Seu Mário acocorado, com a cantilena: Professor, escreva por mim. Um gesto de caridade.

Levanto-me, fico parado na penumbra. Feixes de luz atravessam a janela.

Ao diabo tudo isso, calço os sapatos, atravesso as poças d’água.

Um gesto de caridade, Professor.

Alguém não é doente?


(São Paulo, janeiro de 2002)





terça-feira, 26 de junho de 2012

lusofilias

/Imagem de Manuel Figueira/


Puchinho encrencado no porto. O repuxar do mar espumando a vontade da ida.

Um poeta e um sabiá. Separações atlânticas, sincera sede das ilhas.

Puchinho e esse idioma malhado, sangue e fonema fecundos. Essa mistura. Pasárgada vista no céu de um labirinto, por entre grades frias, numa gaiola.

Puchinho a ver navios se revezando entre ficar e partir. O repuxar dos sonhos embalalados pelos batelões da Company Oil.

Rememorar pra fazer viva a encenação dos mortos?

Um chamo que solta afinal voa curto no espaço, ecoa fraco entre os vapores. Quiçá tenha caído no mar e escumado entre as ondas, buscando a outra Sãocente, salgando o sangue e também a saudade. Essa palavra transatlântica.



(São Paulo, outubro de 2011)


quarta-feira, 20 de junho de 2012

resquícios do leste



"Para o júbilo 
o planeta
está imaturo"


Casa-Museu Maikóvski: a velhinha tenta me explicar que é proibido filmar o quarto onde, com um tiro de revólver, suicidou-se o poeta.
Inutilmente.

(Moscou, janeiro de 2007)


resquícios do leste





Manhã cinzenta na cidade, dez graus negativos: "Existe no homem um vazio do tamanho de Deus." 


(Moscou, janeiro de 2007)